Uma experiência de fé fora do mercado religioso.
- Ismênio Bezerra
- há 1 dia
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Por muito tempo, mantive uma distância consciente das instituições religiosas. Não por ausência de fé, mas por excesso de lucidez. Na tradição católica, passei a perceber um discurso frequentemente engessado, incapaz de dialogar com as complexidades do mundo contemporâneo, refém de um conservadorismo que se instalou cedo demais e se renovou pouco. Com a perda de Dom Hélder Câmara e a progressiva oposição de grupos totalitários à Teologia da Libertação — impulsionada por correntes internas cada vez mais conservadoras — percebi que a Igreja foi, pouco a pouco, se afastando do povo, das lutas sociais concretas, das CEBS (Comunidades Eclesiais de Base) e do Evangelho libertador que brota da vida real dos pobres, dos oprimidos e dos excluídos. Ao abandonar a escuta do campo, das periferias e a presença ativa nos conflitos sociais, passou a falar mais para dentro de si do que para o mundo, trocando a igreja caminhante pelo conforto institucional. Esse distanciamento teve consequências visíveis: o enfraquecimento do vínculo popular e a redução contínua do número de fiéis em um país que, até então, era reconhecido como o maior território católico do mundo — sinal claro de que, quando a Igreja se afasta da vida, a vida também se afasta da Igreja.
O Papa Francisco (o Papa das rupturas) enfrentou o sistema e deixou uma marca profunda na Igreja Católica, e muitos sentem que ele faz falta porque foi um pontífice que colocou a vida e a misericórdia no centro do compromisso cristão, invertendo prioridades que há muito tinham se tornado administrativas ou puramente doutrinárias. Ao longo de seu pontificado, Francisco não apenas procurou tornar a estrutura da Igreja mais transparente, eficiente e próxima dos fiéis, com reformas na Cúria e um esforço contínuo por sinodalidade — ou seja, um modo de governar que escuta as vozes dos leigos e das realidades locais, e não apenas as decisões centralizadas — como também destacou que a missão da Igreja é acolher, amar e servir os pobres, os marginalizados e os que sofrem. Além disso, ele reafirmou a importância do Evangelho como um chamado à compaixão e ao encontro — em vez de simplesmente repetir normas rígidas — e insistiu que a Igreja viva uma “conversão pastoral”, isto é, que saia dos corredores de filmes para estar no caminho com as pessoas comuns, especialmente as mais vulneráveis.
Por tudo isso, a ausência de Francisco é sentida por muitos, como eu, que desejam uma Igreja que não apenas administre dogmas, mas que encarne o amor de Cristo no mundo, caminhando com os que lutam por justiça, dignidade e inclusão. Pena que se foi cedo demais.

Já no campo evangélico — sobretudo entre vertentes pentecostais e neopentecostais — assisti a um fenômeno ainda mais perturbador: igrejas que, pouco a pouco, deixaram de ser comunidades para se tornarem empresas. Nesse modelo, a fé foi convertida em produto, o púlpito em palco, o pastor em coach e o Evangelho em promessa condicionada. A chamada teologia da prosperidade passou a oferecer bênçãos em troca de dinheiro, enquanto o medo, a eterna culpa e a ameaça espiritual se transformaram em ferramentas de controle. A espiritualidade cedeu espaço ao marketing religioso, e a experiência do sagrado foi reduzida a pacotes emocionais de consumo rápido. Em muitos casos, vi espaços que deveriam anunciar libertação transformarem-se em palanques políticos, promovendo intolerância, demonização de quem pensa diferente e ódio travestido de zelo moral, remontado no discurso fascista de “Deus, Pátria e Família”. O resultado foi a formação de multidões não guiadas por uma fé consciente, mas conduzidas pela manipulação planejada, como clientes fiéis de um sistema que se retroalimenta.
Para o bem da minha saúde mental — e acredito que também para a de tantas outras pessoas — tornou-se fundamental afastar-me de ambientes onde a fé é encenada como espetáculo. Não encontro sentido na teatralização do sobrenatural, nas encenações de expulsão de demônios que curiosamente “aparecem” sempre no mesmo horário, nem na histeria coletiva da chamada “oração em línguas”, que não comunica absolutamente nada e se reduz a um exercício repetitivo. Vejo nisso mais ilusão do que espiritualidade: pessoas que, sem aprofundar a leitura da Bíblia, da filosofia, da história e sem reflexão crítica, acreditam estar vivendo algo extraordinário, quando na verdade apenas reproduzem comportamentos aprendidos, alimentando a si mesmas e aos outros com uma falsa sensação de transcendência. Para mim, espiritualidade não nasce do barulho, da catarse ou da performance, mas do silêncio que transforma, da consciência que amadurece e de uma fé que ilumina a vida real, em vez de anestesiá-la. Esse mesmo fenômeno destrutivo, também se encontra há algum tempo no catolicismo, por meio da Renovação Carismática Católica, que nada mais é que um movimento neopentecostal fora das igrejas evangélicas, mas com o mesmo conteúdo, método e formato.
E foi justamente nesse percurso crítico que cresceu dentro de mim uma admiração profunda por outra forma de cristianismo. Um cristianismo encarnado, comprometido com a vida concreta, com a justiça social, com a compaixão ativa e com a liberdade que nasce do encontro verdadeiro com Cristo. Sempre me senti atraído por comunidades que não recuam diante do sofrimento humano, que acolhem os pobres, que respeitam as diferenças e que entendem a fé como presença amorosa no cotidiano — e não como instrumento de dominação. Entre ela a JMV - Juventude Mariana Vicentina, onde tive grandes ensinamentos e vivência pastoral.
Essa sensibilidade me levou a reconhecer, com gratidão e respeito, pessoas e experiências que ousaram romper com estruturas adoecidas. Lideranças que enfrentaram abusos, denunciaram hipocrisias internas e recolocaram no centro do discurso cristão aquilo que nunca deveria ter saído de lá: o amor que cura, liberta e inclui. Um amor que não negocia a dignidade humana, que não transforma Deus em moeda de troca e que não exige submissão cega, mas consciência, responsabilidade e liberdade.
No fundo, o que sempre me fascinou não foi a religião enquanto instituição, mas a fé como prática viva — aquela que se expressa em gestos, escolhas e compromissos reais, como a do Padre Júlio Lancellotti. Uma fé que não foge do mundo, mas se compromete com ele. Uma fé que não se sustenta pelo medo, mas pela coragem de amar. Uma fé que não oprime, mas emancipa.
É dessa busca — crítica, honesta e profundamente humana — que nasce minha recusa ao espetáculo religioso e, ao mesmo tempo, minha permanente abertura às comunidades que insistem em viver o Evangelho não como discurso vazio, mas como caminho concreto de vida.
Por isso, mantive-me distante de tudo que entendi ser o oposto do que Jesus de fato ensinou — das imagens de Deus que manipulam, exploram ou aprisionam.

O encontro que não procurei — mas que me encontrou.
Sem buscar nada, como quem caminha sem direção fixa e apenas observa o horizonte da vida, encontrei um discurso cristão coerente — mais lúcido, humano, realista e cheio de honestidade intelectual. Sem slogans prontos, sem efeitos de impacto, sem estratégia psicológica e emocional para alienar ou conquistar corações por emoção momentânea. Um discurso que acolhe dúvida, celebra a vida com todas as suas imperfeições, e não tem medo de olhar para dentro do ser humano com ternura.
Foi assim que conheci a Igreja Betesda de Fortaleza — uma comunidade que se reúne com alegria e simplicidade, que canta, dança e celebra a vida, que não oferece Deus como um amuleto mágico, mas como presença libertadora na caminhada diária.
Na Betesda, o Evangelho não é um programa de vendas. Não há promessas de cheque milagroso ou bênçãos condicionadas a ofertas generosas. Ao contrário: é um espaço onde a diversidade é acolhida e amada, onde as pessoas podem ser vistas em suas fragilidades, dores e esperanças, e encontrar um Deus que caminha conosco — não um Deus vendido em parcelas.
Uma Comunidade de humanos em caminhada
Lá, encontro reflexões que são verdadeiros convites para viver — e não para fugir da realidade. Temas como “curar a vida ferida” ou “a alegria é coisa séria” falam não de fantasia, mas de compromisso com a vida concreta, com os desafios que todos nós conhecemos.
O que mais me tocou é que a Betesda não se proclama perfeita — e nem precisa, porque não está interessada em vender uma imagem impecável. Está interessada em gente, em respeito, em diálogo franco, em acolher pessoas onde elas estão, sem transformá-las em versões “certas” para caber num molde de graça comercial.
No filme Dois Papas, há um momento decisivo em que se diz que é no caminho que se encontra Jesus: não no pedestal, nem na teoria, nem na promessa vazia — mas caminhando, dialogando, sofrendo, celebrando. Foi assim comigo. Foi no caminho da vida que encontrei a Betesda: não esperando que ela fosse perfeita, mas interessado em uma comunidade que fosse humana e libertadora.
O encanto de uma fé que não cega.
O que mais me encanta nessa igreja não é uma doutrina intacta nem uma perfeição moral — é o fato de que ali se respira liberdade em Cristo, respeito pelas perguntas difíceis, acolhimento real para corações cansados. Não há imposição de pensamento, mas espaço para diálogo profundo. Não há medo de diversidade, mas celebração da beleza de sermos diferentes e ainda assim amados.
É uma fé que não vende Deus, mas oferece um companheiro de jornada. Uma fé que me provocou não por carência, mas por curiosidade — a curiosidade de ver o encontro entre o humano e o divino sem filtros comerciais ou ideológicos.
E ao final desse caminho — que ainda não terminou — posso dizer com alegria: foi na Betesda que reencontrei o sentido de caminhar em comunidade com Jesus, pois já caminhava com Ele sozinho.
Ismênio Bezerra




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