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Gente santa demais me assusta.


Há gente que acorda cedo não para trabalhar, estudar, amar ou melhorar como ser humano. Acorda cedo para fiscalizar a vida dos outros. É quase uma vocação. Uma espécie de Receita Federal da moralidade alheia. Se pudesse, esse tipo de pessoa criaria boleto para pecado, aplicativo de vigilância de comportamento e um disque-denúncia para roupas curtas, beijos demorados, opiniões divergentes e felicidade fora do padrão.


Eu, sinceramente, quero distância de gente santa demais. De gente pura demais. De gente moralista demais. Porque a experiência ensina que, quanto mais alguém precisa anunciar a própria virtude, maior a chance de estar escondendo um porão inteiro atrás da sala de estar.


Há pessoas que falam de família com a boca cheia e de empatia com a boca torta. Defendem a moral, os bons costumes, a tradição, a fé e a pureza, mas frequentemente são incapazes de praticar aquilo que mais cobram dos outros: respeito, generosidade, humildade e compaixão.


O moralista profissional costuma ter uma curiosa habilidade: ele nunca olha para dentro. É sempre o outro que está errado. É sempre o outro que está “perdido”. É sempre o outro que precisa se converter, se corrigir, se enquadrar. Ele vive com uma lupa na vida alheia e uma venda nos próprios defeitos.


Não é coincidência que a psicologia estude há décadas a relação entre julgamento moral, superioridade moral e posicionamentos ideológicos rígidos. Muitas vezes, a moralidade deixa de ser um compromisso ético real e vira apenas um instrumento de pertencimento, poder e distinção: “eu sou melhor porque sou mais correto do que você”.


Há também os que confundem fé com controle. Gente que acredita sinceramente que Deus lhes deu uma procuração para administrar a vida dos outros. Querem escolher como os outros amam, como se vestem, como vivem, como pensam, em quem votam e até como sofrem. Não satisfeitos em ter uma religião, querem transformar sua crença em regulamento interno da humanidade.


Curioso é que até dentro de ambientes religiosos há inúmeras críticas ao falso moralismo e à hipocrisia. Textos cristãos, inclusive, apontam que a hipocrisia religiosa é uma das formas mais perversas de corrupção moral, justamente porque usa a aparência de virtude para esconder vaidade, arrogância e desejo de poder.


A história está cheia desses personagens. Molière já havia criado Tartuffe no século XVII: o falso devoto, impecável no discurso e podre nas intenções. Séculos depois, continua atual. Mudam as roupas, mudam os púlpitos, mudam os perfis de rede social, mas permanece o mesmo tipo humano: o fiscal dos pecados dos outros, convenientemente distraído dos próprios.


E a ironia suprema é que, não raro, os mais ferozes defensores da moral pública aparecem envolvidos em escândalos privados. Casos de abuso, violência, exploração e manipulação frequentemente surgem justamente em ambientes onde alguém se colocava como guardião da virtude, da família e dos bons costumes. Não porque religião produza hipocrisia, mas porque hipocrisia adora vestir fantasia de santidade.


Talvez por isso eu prefira gente imperfeita. Gente que reconhece os próprios defeitos. Gente que erra, assume, aprende e segue. Gente que não precisa parecer santa para ser decente. Porque pessoas verdadeiramente boas raramente têm tempo para posar de juízas da vida alheia. Estão ocupadas demais tentando melhorar a própria.


Jesus nunca fez sua escolha pelos perfeitos de fachada, pelos donos da moral ou pelos especialistas em apontar dedos. Sua escolha foi pelos que estavam à margem: os pobres, os doentes, os pecadores, as prostitutas, os cobradores de impostos, os leprosos, os discriminados e renegados da sociedade. No auge do seu amor, ele não esnobou nenhum pecador. Pelo contrário: sentou-se à mesa com eles, caminhou ao lado deles e lhes ofereceu acolhimento, dignidade e perdão. Já com os “santos” de sua época, os fariseus e mestres da lei, Jesus foi duro, irônico e confrontador, justamente porque via neles a hipocrisia de quem pregava virtude, mas praticava arrogância, vaidade e julgamento. Ele não veio para os que se achavam puros; veio para os que reconheciam suas feridas e sua humanidade.


Se este texto tocou você de alguma forma, deixe um comentário se desejar e, sobretudo, compartilhe — o mundo precisa de mais leveza, mais leitura, mais gente disposta a refletir e mais horizontes capazes de iluminar novos caminhos.


Ismênio Bezerra

Bibliografia


LA TAILLE, Yves de. Desenvolvimento humano: contribuições da psicologia moral. Psicologia USP, São Paulo, v. 18, n. 1, p. 11-36, 2007. Disponível em: PePSIC. Acesso em: 11 abr. 2026.


MOLIÈRE. Tartufo. Paris: 1664. Disponível em: Wikipédia – Tartufo. Acesso em: 11 abr. 2026.


MOLIÈRE. Molière. Disponível em: Wikipédia – Molière. Acesso em: 11 abr. 2026.


SAMPAIO, Lívia Regina. A psicologia e a educação moral. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 27, n. 1, p. 14-27, 2007. Disponível em: PePSIC. Acesso em: 11 abr. 2026.


ARQUIDIOCESE DE NATAL. Artigo – O falso moralismo e a caridade. Natal, 2025. Disponível em: Arquidiocese de Natal. Acesso em: 11 abr. 2026.


PEPSIC. A psicologia como procedimento de análise da moralidade. Disponível em: PePSIC. Acesso em: 11 abr. 2026.


BÍBLIA. Mateus 23. In: Bíblia Sagrada. Nova Versão Internacional. Disponível em: Mateus 23 – Jesus condena a hipocrisia dos fariseus. Acesso em: 11 abr. 2026.


BÍBLIA. Mateus 9. In: Bíblia Sagrada. Disponível em: Mateus 9 – Jesus chama os pecadores e acolhe os marginalizados. Acesso em: 11 abr. 2026.


VATICAN NEWS. Evangelho e palavra do dia – Jesus veio para os pecadores. 21 fev. 2026. Disponível em: Evangelho e palavra do dia 21 fevereiro 2026. Acesso em: 11 abr. 2026.


ARQUIDIOCESE DE BELO HORIZONTE. 07 de julho, 6ª feira, 13ª Semana do Tempo Comum. 7 jul. 2023. Disponível em: Reflexão sobre Jesus e os pecadores. Acesso em: 11 abr. 2026.


Mateus 23 apresenta uma das críticas mais duras de Jesus contra a hipocrisia religiosa, denunciando os fariseus como “sepulcros caiados”, bonitos por fora, mas cheios de impureza por dentro.


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3 comentários

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Rebeca Mota
há 3 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Excelente e necessária reflexão!

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Jamille
há 3 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Concordo com tudo

Texto maravilhoso

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Ana Regina
há 4 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

O ponto de partida é sempre a gente mesmo. Quando olhamos para dentro, reconhecemos nossas próprias fragilidades e exercitamos a caridade primeiro conosco e, depois, com os outros. Assim, entendemos que todos somos frágeis e estamos em constante aprendizado.

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