Entre Trump e Cristo: a escolha moral do nosso tempo
- Ismênio Bezerra
- há 2 dias
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Em tempos de manipulação de massa, de culto à personalidade e de algoritmos que transformam indignação em entretenimento, há uma parte da sociedade que parece preferir Donald Trump a Jesus Cristo. Não necessariamente no discurso religioso formal, mas na prática cotidiana, na forma como escolhe seus ídolos, suas referências e seus valores.
Jesus pregou humildade, acolhimento, misericórdia, compaixão, perdão, partilha, amor aos pobres, respeito aos estrangeiros, proteção aos vulneráveis e recusa ao poder exercido pela força. Trump, por outro lado, construiu sua imagem pública sobre a agressividade, o enfrentamento permanente, a lógica da humilhação do adversário, a retórica do medo e a ideia de que o mundo deve ser governado pela imposição e pela força. Para muitos, isso se tornou mais sedutor do que o Sermão da Montanha.
Parte do fascínio exercido por Trump está justamente na sua capacidade de encarnar aquilo que muitos desejam secretamente: o homem que não pede desculpas, que agride, que humilha, que transforma política em espetáculo, que promete ser uma espécie de imperador moderno, uma polícia do mundo, alguém acima das regras e das instituições. Ele vende a ideia de que força é sinônimo de virtude e que brutalidade é sinônimo de coragem.
Mas essa força, muitas vezes, se manifesta como descontrole. Trump acumulou ao longo dos anos ataques a aliados, adversários, jornalistas, imigrantes, mulheres, líderes religiosos e chefes de Estado. Recentemente, voltou a atacar publicamente o Papa, chamando-o de “fraco” e “terrível para política externa”, após críticas do Vaticano à guerra envolvendo Irã e Israel. Em resposta, o Papa reafirmou que não teme Trump e que continuará defendendo a paz e os valores do Evangelho.
Mais grave ainda é quando essa retórica bélica se mistura a conflitos internacionais. Trump voltou a defender ações militares duras no Oriente Médio, atacando líderes europeus que não aderiram às ofensivas contra o Irã e criticando publicamente chefes de governo que tentaram frear a escalada militar. Sua postura reforça a ideia de que qualquer divergência deve ser resolvida pela força, e não pela diplomacia.
Essa lógica produz consequências concretas. Quando um líder transforma guerra em demonstração de virilidade, quando trata vidas humanas como peças de um tabuleiro geopolítico, ele banaliza a morte. O problema não é apenas a política externa; é a transformação do sofrimento humano em instrumento de propaganda. É a tentativa de transformar destruição em patriotismo e violência em grandeza nacional.
Ao mesmo tempo, Trump construiu sua trajetória cercado por contradições morais profundas. Durante anos, manteve relação próxima com Jeffrey Epstein, frequentando os mesmos ambientes e círculos sociais. Ainda que não exista condenação criminal contra Trump relacionada aos crimes de Epstein, a proximidade entre ambos, as festas, viagens e relatos posteriores continuam levantando dúvidas morais relevantes sobre o tipo de elite que ele representou e protegeu.

Há também uma profunda incoerência entre o moralismo que Trump e parte de seus seguidores pregam e a prática concreta de suas vidas públicas. Muitos se apresentam como defensores da família, da fé, da moral cristã e dos bons costumes, mas silenciam diante de discursos de ódio, xenofobia, misoginia e violência. O mesmo líder que posa como guardião da civilização ocidental frequentemente ataca migrantes, despreza refugiados, ridiculariza adversários e transforma a religião em peça de marketing político. Recentemente, chegou ao ponto de compartilhar uma imagem produzida por inteligência artificial em que aparecia como uma figura semelhante a Jesus, algo que gerou forte reação até entre cristãos conservadores.
O desastre também aparece na política interna. O trumpismo ajudou a aprofundar divisões sociais, alimentar teorias conspiratórias, desacreditar instituições democráticas, enfraquecer consensos mínimos e transformar o debate público em guerra permanente. Ao invés de unir, fragmenta. Ao invés de pacificar, incendeia. Ao invés de liderar com serenidade, governa pelo medo, pela vingança e pelo ressentimento.
O mais preocupante é perceber que muitas pessoas, inclusive cristãs, parecem admirar mais o homem que grita do que o homem que acolhe. Mais o homem armado do que o homem que perdoa. Mais o homem que constrói muros do que o homem que estende a mão. Mais o homem que promete esmagar inimigos do que aquele que ensinou a amar até os adversários.
No fundo, talvez este seja um dos grandes dramas do nosso tempo: há quem diga seguir Jesus, mas prefira viver segundo os valores de Trump. E entre o Cristo da misericórdia e o ídolo da força, muita gente já fez sua escolha.
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Ismênio Bezerra
Bibliografia
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