O shape e o vazio.
- Ismênio Bezerra
- há 1 dia
- 3 min de leitura

Houve um tempo em que as pessoas queriam ser interessantes. Hoje, boa parte delas quer apenas parecer interessante em uma foto de academia, de preferência diante de um espelho, com luz estratégica, abdômen contraído e uma legenda motivacional copiada de algum perfil fitness.
Não há problema algum em cuidar do corpo. Muito pelo contrário. Saúde importa. Disposição importa. Exercício físico melhora a qualidade de vida, protege o coração, ajuda a mente e prolonga a vida. O problema começa quando o corpo vira a única parte do ser humano que recebe investimento, enquanto o cérebro é deixado sedentário, encostado num sofá qualquer, vivendo de frases prontas e opiniões de internet.
Vivemos numa época curiosa: muita gente consegue explicar detalhadamente a diferença entre creatina, whey, pré-treino e cutting, mas não consegue sustentar dez minutos de conversa sem recorrer a clichês, fake news ou frases motivacionais vazias. Há pessoas com bíceps impressionantes e repertório de colher de chá.

Stephen Hawking talvez seja um dos maiores símbolos disso tudo. Seu corpo, já há muito tempo antes de sua morte, não correspondia a nenhum padrão de força física, vigor estético ou beleza de revista. Não tinha tanquinho, braço definido, pose de academia ou sorriso de propaganda de suplemento. Mas bastava entrar em qualquer ambiente para que todos quisessem ouvi-lo. Porque Hawking tinha algo raro: uma mente capaz de lotar auditórios, inspirar gerações e fazer as pessoas olharem para o universo de outra forma.
Enquanto muita gente malhava para caber melhor numa camiseta, Hawking malhava o cérebro para caber melhor no cosmos.
É curioso perceber que músculos chamam atenção por alguns segundos, mas inteligência chama atenção por uma vida inteira. Um corpo bonito pode render curtidas. Uma mente brilhante rende admiração, legado e permanência. O abdômen pode impressionar numa praia. Mas é a inteligência que sustenta uma conversa, uma relação, uma liderança, uma carreira e até mesmo o silêncio.
Talvez seja por isso que tantas pessoas vivem cercadas de espelhos e vazias de conteúdo. Cuidam tanto da aparência porque, no fundo, têm medo de que não haja muita coisa para mostrar além dela.
O ideal, evidentemente, não é abandonar a academia e viver apenas entre livros. O equilíbrio continua sendo a forma mais inteligente de existir. Cuidar do corpo é importante. Mas cuidar da mente é indispensável. Porque, no fim das contas, músculos têm sua serventia. Já a inteligência tem profundidade, permanência e uma elegância que nem o melhor shape do verão consegue alcançar.
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Ismênio Bezerra
Bibliografia
HAWKING, Stephen. Uma Breve História do Tempo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015.
FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. São Paulo: Penguin Companhia, 2011.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
BOTTON, Alain de. Vaidade: de Como se Tornar um Egoísta. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
PLATÃO. A República. São Paulo: Martin Claret, 2000.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2001.
LIPOVETSKY, Gilles. A Era do Vazio. Barueri: Manole, 2005.
BROWN, Brené. A Coragem de Ser Imperfeito. Rio de Janeiro: Sextante, 2016.
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Compartilho da mesma ideia que você. A inteligência encanta de forma única, indo muito além da beleza física, pois toca a alma de quem também sabe sentir e valorizar. O verdadeiro encanto está no equilíbrio entre cuidar de si e cultivar a mente. No fim, nos conectamos com aquilo que reconhecemos no outro.
Esse texto evidencia a superficialidade dos valores que uma sociedade está vivendo.