Crônica de travessia — sobre a vida, o tempo e a delicadeza de continuar
- Ismênio Bezerra
- 1 de jan.
- 6 min de leitura
Atualizado: 7 de mar.
2025 não passou por mim — atravessou-me.Atravessou como atravessam as coisas que não pedem permissão, que não negociam pausas e não se explicam. Foi, sem qualquer dúvida, o ano mais difícil da minha existência. Um ano em que tudo veio junto, ao mesmo tempo, exigindo lucidez quando eu só queria silêncio, força quando o corpo implorava descanso e coragem quando nenhuma promessa de recompensa estava à vista.

Começou pelas dores do amor. E ali já se anunciava que nada seria simples. Vieram o infarto, os seis stents, o retorno a uma relação que parecia impossível de se dissolver, apesar das dificuldades e das interferências externas. Mal houve tempo de respirar e já me vi lançado em turbulências profissionais, em dias que pareceram meses. Houve reconhecimento, sim — ele foi registrado, formalizado, documentado. Mas 2025 ensinou cedo que reconhecimento não garante permanência e que justiça, muitas vezes, não chega no mesmo ritmo da dor.
Cheguei a tempo de te ver acordar
Eu vim correndo à frente do sol
Abri a porta e antes de entrar
Revi a vida inteira
Milton Nascimento
O ano seguiu em movimento constante: em junho, Salvador; em agosto, o melanoma; em setembro, Fortaleza. Mudanças de cidade, de rumo, de chão. E, no dia seguinte à mudança, o fim definitivo do noivado. Uma decisão que até hoje não faz sentido, embora eu reconheça, com humildade, minhas falhas. Expliquei, tentei, insisti — e não fui compreendido. Ali experimentei a mais profunda devastação emocional. Descobri que quando essa dor chega, consegue ser mais cruel do que qualquer dor física. E 2025, à força, redefiniu minhas convicções sobre o amor: aprendi que amar não assegura permanência, que entrega não garante reciprocidade e que, muitas vezes, a chamada “verdade” é usada mais para ferir do que para curar ou reaproximar.
Pouco depois, um recomeço profissional. Uma nova nomeação, oferecida por alguém generoso, que estendeu a mão quando o chão ainda tremia. A vida parecia insistir nesse movimento estranho: tirar com uma mão, devolver com a outra, sem delicadeza, como se testasse até onde eu ainda podia ir sem desabar.
Então veio o golpe mais silencioso. Dois dias após o aniversário da minha filha, o diagnóstico de um tumor na cabeça. Vieram a imunoterapia, o corpo cansado, a esperança cautelosa. E, como se não bastasse, em outubro, a constatação de algo que muitos ignoram, mas que pesa tanto quanto qualquer doença física: a depressão. Aceitar o tratamento foi aceitar que equilíbrio também é cuidado, e que seguir adiante, às vezes, exige ajuda profissional — e medicamentosa.
Vida louca vida, vida breve
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve
Vida louca vida, vida imensa
Ninguém vai nos perdoar
Cazuza
A cirurgia estava marcada. Mas 2025 ainda guardava um último teste. Uma dor de cabeça na madrugada, o hospital, a ligação para o médico — e, de repente, eu já estava em uma mesa cirúrgica, diante de uma hemorragia inesperada. A equipe agiu rápido. Estancou o sangramento. Retirou fragmentos do tumor. Salvou mais um capítulo da minha história.
Hoje trato as sequelas. Com paciência. Com serenidade. Sem lamento.
Porque, no fim, este não é um texto sobre dor. É sobre sobrevivência. Sobre atravessar um ano que eu torci, sinceramente, para acabar — e que, embora tenha terminado, deixou marcas profundas. Cicatrizes visíveis e invisíveis. Lições que não pedi, mas que ficaram. 2025 tentou me triturar — e conseguiu em muitos momentos —, mas não conseguiu me enterrar. Caí inúmeras vezes e, ainda assim, permaneci inteiro no essencial. Aprendi que, em certos períodos, viver não é florescer: é resistir com dignidade.
Também foi um ano de olhar para o lado e sentir a dor dos amigos. Vi pessoas queridas sendo injustiçadas, silenciadas, esmagadas por circunstâncias duras. Doeu quase tanto quanto minhas próprias quedas, porque a dor do outro, quando é verdadeira, nunca nos é estranha.
E, apesar de tudo, encontrei — e sigo precisando encontrar — esperança mesmo caminhando sozinho. Uma esperança discreta, sem euforia, sem promessas fáceis. Daquelas que não gritam, mas sustentam.
Despeço-me de 2025 com respeito. Não foi um ano gentil. Foi o mais duro da minha vida. Mas foi profundamente esclarecedor. Mostrou-me que, mesmo sozinho, é possível sobreviver. E foi também um ano de gratidão: pela vida dos meus familiares, apesar das perdas; pelas mãos estendidas no caminho dos meus amigos, do meu amigo e chefe, da equipe que pertenço; e, sobretudo, por poder celebrar a vida da minha filha, Júllia Ângela — meu norte, minha maior razão, minha certeza de que continuar vale a pena.

2026 e a escolha por uma vida leve: menos cobrança, mais consciência
Todo início de ano carrega um ritual quase automático. Listas de metas, promessas ambiciosas, resoluções grandiosas. Existe uma sensação silenciosa de que, se eu não mudar tudo imediatamente, estarei ficando para trás. Em 2026, essa pressão parece ainda mais intensa, alimentada por redes sociais, discursos de alta performance e por uma cultura que insiste em confundir valor pessoal com produtividade, consumo e aparência de sucesso.
Mas, com a maturidade que a vida me impôs, tenho me feito uma pergunta diferente — e talvez mais honesta: por que eu preciso estabelecer metas agora? E, sobretudo, a quem elas realmente servem? Tudo isso sem me eximir das responsabilidades assumidas.
Percebi que muitas metas não nascem do desejo genuíno, mas da comparação. Da expectativa da sociedade, da família, do mercado, das redes, do padrão de vida que nos é exibido diariamente. Quando isso acontece, a meta deixa de ser horizonte e vira armadilha. Não porque planejar seja inútil, mas porque caminhar guiado pelo olhar do outro quase sempre termina em frustração.
Vivemos sob a pressão constante de “dar certo”, “crescer”, “evoluir rápido”, “ostentar resultados”. Nesse ambiente, descansar vira culpa, desacelerar parece fracasso e dizer “não quero agora” soa como desistência. O resultado é visível: pessoas cansadas, ansiosas, emocionalmente exaustas — mesmo quando, aos olhos de fora, parecem bem-sucedidas.
Com o tempo, aprendi algo simples e libertador: nem toda vida precisa de novas metas o tempo todo. Há anos em que a tarefa mais corajosa não é avançar, mas sustentar. Sustentar a saúde mental, preservar relações, reorganizar a vida por dentro, respeitar limites físicos e emocionais. Tudo isso também é movimento, ainda que não apareça em gráficos, relatórios ou postagens.
Não estabelecer grandes metas em 2026 pode ser, para muitos de nós, um gesto de maturidade. Um reconhecimento de que a vida não é uma corrida linear e de que nem todo ciclo pede expansão. Alguns pedem integração, cuidado e silêncio.
Desacelerar, descobri, não significa abandonar responsabilidades. Significa redefinir prioridades. Viver em estado permanente de urgência compromete o sono, o corpo, a alimentação e o equilíbrio emocional. A ciência já não deixa dúvidas: saúde mental e saúde física caminham juntas. Uma não se sustenta sem a outra.
Uma vida mais leve começa quando aceito que não preciso responder a todas as demandas, participar de todas as disputas ou corresponder a todas as expectativas. Quando entendo que dizer “não” também é um ato de cuidado.
O discurso do consumo, por sua vez, associa felicidade à aquisição, ao status, à visibilidade. A lógica é cruel: nunca sou suficiente, sempre falta algo, sempre existe alguém melhor. Essa narrativa adoece porque desloca o sentido da vida para fora, tornando a satisfação refém do reconhecimento externo.
Escolher uma vida leve em 2026 é decidir não organizar minha existência em função do que será exibido, mas do que faz sentido. Menos comparação. Menos necessidade de provar. Menos urgência em parecer.
Também precisei aprender que a internet não é neutra. Algoritmos são desenhados para capturar atenção, estimular desejo, provocar ansiedade. Sem consciência, esse ambiente molda expectativas irreais sobre corpo, carreira, relacionamentos e felicidade. Proteger a saúde mental passou a significar limitar a exposição a conteúdos que adoecem, reconhecer quando o uso da rede deixa de informar e passa a ferir, e lembrar que a vida real não acontece no ritmo nem no enquadramento das telas.
Silenciar, pausar, sair um pouco do fluxo também é autocuidado.
E não são apenas os algoritmos que nos afetam. Ambientes de convivência também moldam a mente. Lugares marcados por competição excessiva, desqualificação e falta de empatia corroem o equilíbrio aos poucos. Aprendi que cuidar da saúde mental envolve escolher onde estar, com quem estar e até quanto tempo permanecer. Estabelecer limites não é afastamento — é preservação.
Talvez 2026 não seja sobre fazer mais, produzir mais ou correr mais rápido. Talvez seja sobre viver melhor. Uma vida leve não é uma vida sem desafios, mas uma vida com menos autoagressão. É aprender a tratar a mim mesmo com a mesma gentileza que ofereço aos outros. É compreender que valor não se mede por metas batidas, mas por coerência interna, bem-estar e integridade.
Se 2026 for o ano em que eu me cobrar menos, escutar mais o meu corpo, desacelerar sem culpa, reduzir o ruído externo e priorizar a saúde mental, a espiritualidade, então ele já será, por si só, um ano bem vivido.
E talvez — apenas talvez — isso seja mais revolucionário do que qualquer lista de metas.
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Ismênio Bezerra
"Quem já passou por essa vida e não viveu, Pode ser mais mas sabe menos do que eu".
Vinícius de Moraes
Referência
Nesta crônica, as referências ultrapassam as páginas dos livros. Elas nascem das ruas percorridas, das cidades habitadas, das conversas guardadas na memória, das pessoas que deixaram marcas profundas e dos tempos vividos com intensidade. São experiências, encontros, silêncios, afetos e travessias que, pouco a pouco, moldaram o olhar, a escrita e a maneira de compreender o mundo.
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Querido, eu vejo tudo isso como um grande propósito de Jesus na sua vida. Apesar das dificuldades que você enfrentou, você atravessou, viveu, reviveu… e hoje está em 2026 debaixo do cuidado e do direcionamento de Deus. Acredite: o melhor de Deus ainda está por vir!
Ismênio querido!!! Que texto hein? Realmente 2025 atropelou a gente e vc mais ainda, com tantas provações, mas sem dúvida nenhuma nos fez crescer como seres humanos, a cada tombo eu vejo como chamados de Deus para um viver melhor!!! Sigamos em frente, pq afinal de contas nós viemos a este mundo para sermos felizes!!! Um beijo grande no seu coração. Ilê...