A vida não fecha ciclos: ela continua.
- Ismênio Bezerra
- há 3 dias
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Há algo profundamente sedutor na ideia de “ciclos”. Ela conforta. Dá a impressão de que tudo retorna, de que as perdas podem ser refeitas, de que os erros podem ser desfeitos e de que, em algum momento, voltaremos ao lugar onde tudo começou. Mas talvez essa seja uma das grandes ilusões humanas: acreditar que a vida gira em círculos.
Em sentido rigoroso, um ciclo é aquilo que retorna ao ponto de partida. As estações do ano são ciclos. O movimento de um relógio é um ciclo. A órbita dos planetas é um ciclo. Há repetição, retorno, reinício. Mas a vida humana não funciona assim. A vida não retorna ao mesmo lugar. Ela segue adiante.
A física chama isso de “flecha do tempo”: a percepção de que o tempo tem uma direção irreversível. Um copo pode cair e quebrar, mas nunca veremos os cacos se reorganizando sozinhos até formar novamente o copo original. O passado se afasta, o futuro se aproxima, e entre um e outro há uma travessia que nunca se desfaz. A entropia — que é, de modo simplificado, a tendência natural das coisas à desordem — só aumenta. É isso que torna o tempo assimétrico: ele não volta.
Mesmo quando algumas coisas parecem se repetir, elas nunca se repetem da mesma forma. Você pode voltar à mesma rua, à mesma cidade, à mesma pessoa, ao mesmo sentimento. Mas você já não é o mesmo. A rua mudou. A cidade mudou. A pessoa mudou. O sentimento mudou. E, principalmente, o tempo passou. Não existe retorno verdadeiro, porque não existe possibilidade de reencontrar exatamente o instante que foi perdido.
É por isso que a ideia de “encerrar ciclos” talvez seja bonita como metáfora, mas imprecisa como verdade. Quando alguém diz que fechou um ciclo, parece sugerir que voltou ao ponto inicial para começar outro. Mas isso nunca acontece. Não se volta ao início. Nunca voltaremos ao primeiro amor, à primeira infância, ao primeiro sonho, ao primeiro erro, à primeira coragem. Tudo isso ficou para trás, não porque deixou de existir, mas porque se tornou passado.
Alguns filósofos imaginaram o contrário. A ideia do eterno retorno, por exemplo, defendia que a vida seria uma repetição infinita dos mesmos acontecimentos, eternamente. Nietzsche retomou essa hipótese como provocação filosófica: e se tivéssemos de viver tudo de novo, exatamente igual, para sempre?
Mas talvez a maior evidência contra essa ideia seja justamente a experiência humana. Nada volta igual. Nem nós. A dor que retorna não é a mesma dor, porque quem sofre já não é o mesmo de antes. O amor que reaparece não é o mesmo amor, porque já traz consigo tudo o que viveu, perdeu e aprendeu.
Por isso, talvez seja mais correto dizer que a vida não é circular. Ela é linear. Não no sentido de ser simples, organizada ou previsível. Mas no sentido de que ela avança. Ela deixa marcas, acumula memória, produz consequências. A vida não gira: ela escorre. Ela passa. Ela continua.
E quando algo parece se repetir exatamente igual, talvez não seja um ciclo. Talvez seja uma tragédia. Ou talvez seja um teatro. Porque a repetição perfeita não existe na vida real. Se tudo volta exatamente ao mesmo lugar, com os mesmos erros, as mesmas dores, os mesmos personagens e as mesmas falas, então provavelmente não há espontaneidade nem verdade ali. Há encenação. Há aprisionamento. Há gente insistindo em fabricar um passado para não ter de enfrentar o futuro.
A vida, porém, não aceita isso por muito tempo. Ela segue. Sempre segue.
E talvez amadurecer seja justamente compreender isso: que não estamos encerrando ciclos. Estamos apenas continuando a caminhar, cada vez mais longe do lugar de onde partimos.
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Ismênio Bezerra
Bibliografia
Arthur Eddington EDDINGTON, Arthur. The Nature of the Physical World. Cambridge: Cambridge University Press, 1928.
Stephen Hawking HAWKING, Stephen. Uma Breve História do Tempo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015.
Friedrich Nietzsche NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
Friedrich Nietzsche NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
Ilya Prigogine PRIGOGINE, Ilya. O Fim das Certezas: Tempo, Caos e as Leis da Natureza. São Paulo: Editora UNESP, 1996.
Mircea Eliade ELIADE, Mircea. O Mito do Eterno Retorno. São Paulo: Mercuryo, 1992.
Ludwig Boltzmann BOLTZMANN, Ludwig. Lectures on Gas Theory. Berkeley: University of California Press, 1964.
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Excelente reflexão!