Às vezes o amor não basta
- Ismênio Bezerra
- há 13 horas
- 3 min de leitura

Existe uma crença quase automática de que, havendo amor, tudo se resolve. É uma ideia bonita — e perigosa. Porque, na vida real, o amor não é um antídoto mágico contra imaturidade, projeções, medos e padrões que cada um carrega. Às vezes o amor existe, é verdadeiro, é intenso… e ainda assim não basta.
Há pessoas que não sabem amar. Não por falta de sentimento, mas por falta de repertório emocional. Amar exige mais do que sentir: exige sustentar, escutar, revisar a si mesmo, tolerar frustrações e aprender a reparar danos. E há também quem não se permita ser amado. Gente que, por histórias mal resolvidas, mantém o coração em permanente estado de defesa. Desconfia, antecipa o pior, projeta no outro dores antigas e transforma qualquer ruído em prova de abandono. Nesses casos, o amor do outro não entra — ele esbarra.
Outro ponto recorrente é a idealização. Muitos entram em um relacionamento esperando um conto de fadas: leve, constante, sem atrito. Quando surgem conflitos — inevitáveis em qualquer convivência real — a frustração aparece como sinal de “não era para ser”. Mas a verdade é menos romântica e mais honesta: não existe relacionamento sem problemas. Quando não há conflitos, muitas vezes há silêncio, evitação ou aparência — e aparência não sustenta vínculo, só o adia.
Os relacionamentos que prosperam não são os que não têm falhas, mas os que sabem lidar com elas. São aqueles em que duas pessoas reconhecem limites, enxergam defeitos — próprios e do outro — e, ainda assim, escolhem ficar e trabalhar. Escolhem conversar quando seria mais fácil fugir, ajustar quando seria mais simples culpar, reparar quando erram. Amor maduro não nega o problema; ele decide o que fazer com ele.
Também é preciso dizer: amar não é anular-se — e tampouco anular o outro. Amor não é fusão, é encontro. Quando alguém se perde de si para manter o vínculo, o preço vem depois: ressentimento, exaustão, perda de identidade. Relacionar-se é construir um espaço onde o “eu” continua existindo, mas se compromete com o “nós”. Um vínculo saudável tem acordos, não imposições; tem escuta, não competição; tem ajuste, não submissão.
Isso implica compromisso com o que faz bem aos dois e ao relacionamento. Implica, também, renunciar ao ego — esse juiz interno que precisa estar certo, vencer discussões, provar pontos. Um relacionamento baseado apenas no “eu” tende a se desgastar, porque o “nós” vira território de disputa. E sem “nós”, não há projeto comum — há apenas dois indivíduos dividindo um espaço, não uma vida.
Concessões são inevitáveis. Mas concessão não é sacrifício constante nem martírio silencioso. Concessão saudável é escolha consciente, equilibrada, recíproca. É ceder hoje sabendo que amanhã também haverá espaço para ser acolhido. Quando só um cede, não há parceria — há desequilíbrio.
No fim, não existe fórmula. O amor é feito de decisões diárias, de acertos e de erros, de dores e de delícias. Aprende-se amando — e, muitas vezes, sofrendo. Aprende-se percebendo onde exageramos, onde nos defendemos demais, onde exigimos o que não oferecemos. A vida, com suas perdas e encontros, é a grande professora.
Amar não pode exigir perfeição. Quem espera perfeição, invariavelmente, se decepciona. Amar sozinho machuca — porque o amor pode até não exigir reciprocidade para existir, mas precisa dela para permanecer saudável. Sem retorno, quem ama se cansa, se esvazia, se desilude não só da relação, mas do próprio amor.
Ainda assim, o amor tem um poder de cura que frequentemente subestimamos. Quando é vivido com verdade, responsabilidade e presença, ele reorganiza, acolhe, transforma.
O amor não resolve tudo — mas transforma completamente a maneira como atravessamos o que a vida nos impõe. Talvez essa seja a sua verdade mais humana: sozinho, ele não basta; mas quando é cuidado, sustentado e vivido com entrega, ele deixa de ser apenas um sentimento e se torna uma força viva — capaz de acolher, curar e dar sentido até às dores mais profundas.
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Ismênio Bezerra
Bibliografia
ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 2001.
MORAES, Vinicius de. Nova antologia poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
MEIRELES, Cecília. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001.
QUINTANA, Mario. Esconderijos do tempo. São Paulo: Globo, 1980.
BARROS, Manoel de. O livro das ignorãças. Rio de Janeiro: Record, 1993.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdução. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2019.
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