"Quantas crianças foram mortas dessa vez?"
- Ismênio Bezerra
- 5 de abr. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 13 de mar.

Diante do triste acontecimento na creche em Blumenau, torna-se inevitável que a sociedade como um todo pare por um instante e reflita sobre sua própria responsabilidade coletiva na prevenção de tragédias semelhantes.
A canção “A Fonte”, da Legião Urbana, ecoa como um lembrete doloroso e necessário. Em meio à reflexão sobre guerra, sofrimento e humanidade, a pergunta “quantas crianças foram mortas dessa vez?” surge como um grito contra a banalização da violência que vitima inocentes. A música fala de amor e esperança mesmo diante da brutalidade humana, e seu apelo continua atual: lembrar que a paz não nasce da indiferença, mas da coragem de construir caminhos mais humanos.
O ataque à creche em Blumenau, no estado de Santa Catarina, chocou profundamente o país. A notícia de que um homem invadiu o espaço com uma machadinha, tirando a vida de quatro crianças, deixou o Brasil consternado e angustiado diante da vulnerabilidade daqueles que deveriam estar protegidos. Infelizmente, o episódio não pode ser visto como um fato isolado. O país convive há décadas com um histórico de violência que atinge crianças, adolescentes e jovens, e a repetição de casos semelhantes revela um problema que exige reflexão séria e urgente.
Nada pode justificar a barbárie ocorrida naquela creche. Esse tipo de violência revela sintomas de uma sociedade que, muitas vezes, negligencia a saúde mental e permite que discursos extremistas ocupem mais espaço do que a construção de equilíbrio emocional e convivência democrática. Reconhecer esse quadro é fundamental. A violência não pode ser aceita como resposta para frustrações individuais ou coletivas. É necessário buscar alternativas que garantam um futuro mais seguro para crianças e jovens, colocando a saúde mental no centro das prioridades públicas e sociais.
Nos momentos de comoção, surgem frequentemente vozes que defendem mais armas como forma de prevenção. No entanto, experiências internacionais mostram que essa não é uma solução simples. Países com elevados níveis de armamento civil, como os Estados Unidos, convivem com recorrentes episódios de violência em escolas, mesmo em ambientes que contam com vigilância armada.
Há também exemplos distintos. A Nova Zelândia, por exemplo, desenvolveu políticas rigorosas de controle e desarmamento após episódios de violência, fortalecendo uma cultura de prevenção e responsabilidade coletiva. O debate sobre segurança pública, portanto, precisa ir além de respostas imediatistas e considerar experiências que priorizam a cultura de paz e a redução da circulação de armas.
É igualmente importante lembrar que a violência não se manifesta apenas de forma física. O Brasil enfrenta altos índices de violência psicológica, abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes, além de negligência e abandono. Esses fenômenos estão profundamente ligados à desigualdade social, às fragilidades no acesso à educação e à saúde e à ausência de políticas públicas consistentes de proteção à infância e à juventude.
Por isso, a comoção que surge diante de tragédias como a de Blumenau não pode se limitar ao choque momentâneo. Ela precisa se transformar em ação. É fundamental que a sociedade cobre das autoridades políticas políticas públicas capazes de garantir proteção e desenvolvimento saudável às novas gerações. Investimentos em educação, saúde, esporte, cultura e lazer não são apenas programas sociais — são pilares de uma sociedade que deseja proteger seu futuro.
A violência que atinge crianças e adolescentes não será resolvida apenas com o aumento de armamentos. Enfrentar suas causas exige políticas estruturais, compromisso coletivo e a promoção permanente de uma cultura de paz. A proteção das novas gerações é uma responsabilidade compartilhada entre famílias, comunidades, instituições e o Estado.
Também é necessário cuidado na forma como a sociedade reage e comunica essas tragédias. Em casos de ataques a escolas, como o ocorrido em Blumenau, especialistas alertam para a importância de não divulgar imagens do agressor, do massacre ou símbolos que possam transformar o crime em uma espécie de troféu simbólico. A exposição excessiva pode incentivar imitadores e aprofundar o sofrimento das famílias e da comunidade escolar.
Diante de uma dor tão profunda, resta a solidariedade. A perda de uma criança é uma ferida que nenhuma família deveria enfrentar, sobretudo em circunstâncias tão violentas e injustificáveis. O pensamento e a empatia de toda a sociedade devem se voltar às famílias das vítimas, à comunidade escolar e aos cidadãos de Blumenau, que agora enfrentam o peso do luto e do trauma coletivo.
Que a memória dessas crianças não seja apenas lembrada na tristeza, mas também como um chamado à consciência. Um chamado para que a sociedade brasileira transforme indignação em responsabilidade, dor em reflexão e reflexão em compromisso com um futuro mais seguro, humano e pacífico para todas as crianças.
Se este texto tocou você de alguma forma, deixe um comentário se desejar e, sobretudo, compartilhe — o mundo precisa de mais leveza, mais leitura, mais gente disposta a refletir e mais horizontes capazes de iluminar novos caminhos.
Ismênio Bezerra
Bibliografia
ARENDT, Hannah. Sobre a violência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.
BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Brasília: Presidência da República, 1990.
BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde mental no Brasil: políticas e diretrizes. Brasília: Ministério da Saúde, 2015.
CERQUEIRA, Daniel et al. Atlas da Violência 2023. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA); Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2023.
DURKHEIM, Émile. Educação e sociologia. São Paulo: Melhoramentos, 2011.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023. São Paulo: FBSP, 2023.
GALTUNG, Johan. Peace by Peaceful Means: Peace and Conflict, Development and Civilization. London: Sage Publications, 1996.
LEGIÃO URBANA. A fonte. In: Uma outra estação. Rio de Janeiro: EMI-Odeon, 1997. 1 CD.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Relatório mundial sobre violência e saúde. Genebra: OMS, 2002.
UNICEF. Situação mundial da infância. Nova York: United Nations Children’s Fund, 2021.
Deixe um comentário!




Comentários