Conteúdos sem valor: o declínio dos influenciadores digitais.
- Ismênio Bezerra
- 26 de jan.
- 3 min de leitura

Na análise crítica do ecossistema digital contemporâneo, torna-se fundamental compreender a proliferação de conteúdos podres e pobres como parte de um modelo comunicacional baseado na exploração da atenção, na superficialidade e na mercantilização da subjetividade. Esses conteúdos não surgem de forma espontânea, mas são produzidos em larga escala dentro de uma lógica que prioriza engajamento, impacto emocional e visibilidade, frequentemente em detrimento da verdade, da dignidade e da responsabilidade social.
Os chamados conteúdos podres operam diretamente na desconstrução da convivência civilizada. Estimulam ou normalizam a violência, o preconceito, a intolerância, o ódio e a desumanização do outro. Ao transformar conflitos, humilhações e sofrimentos em espetáculo, fragilizam vínculos sociais e contribuem para a banalização da crueldade. Trata-se de uma comunicação que não apenas informa mal, mas educa negativamente, formando mentalidades intolerantes e insensíveis.
Já os conteúdos pobres caracterizam-se pela ausência de base científica, intelectual e ética. São sustentados por achismos, promessas ilusórias e narrativas simplistas. Promovem dietas sem respaldo técnico, métodos milagrosos, soluções instantâneas e propagandas disfarçadas. Ao induzirem ao erro, fragilizam a autonomia das pessoas e estimulam decisões prejudiciais à saúde, às finanças e ao bem-estar emocional.
Esses conteúdos também alimentam uma cultura de consumismo impulsivo, ostentação vazia e busca incessante por status. Reforçam práticas ambientalmente irresponsáveis, distorcem valores éticos e reduzem indivíduos a mercadorias simbólicas. A intimidade vira produto, o corpo vira capital e o sofrimento vira entretenimento. Nesse processo, enfraquecem-se princípios como empatia, solidariedade e moderação.
Observa-se, nesse contexto, a produção diária e massiva de conteúdos sem valor por um grande número de influenciadores que operam sob a lógica da visibilidade a qualquer custo. Movidos por algoritmos e contratos publicitários, priorizam quantidade em detrimento da qualidade, repetem fórmulas vazias e exploram polêmicas artificiais. O conteúdo deixa de ser instrumento de reflexão e passa a ser produto descartável.
Entre os exemplos mais graves está a promoção do chamado “jogo do Tigrinho”, amplamente divulgado por influenciadores em busca de monetização rápida. Baseado na promessa de ganho fácil, esse conteúdo estimulou o vício em apostas, o endividamento familiar e o agravamento da vulnerabilidade social, especialmente entre jovens. A gravidade do fenômeno motivou a abertura de Comissões Parlamentares de Inquérito, revelando seus impactos profundos na base da sociedade.
Além disso, muitos influenciadores promovem plataformas como Discord, Reddit, Twitch e 4chan, que, embora possuam usos legítimos, tornaram-se ambientes associados à disseminação de discursos de ódio, desafios perigosos e práticas extremistas. Em diversos casos, esses espaços foram utilizados para incentivar comportamentos autodestrutivos, resultando em consequências trágicas para crianças e adolescentes. A divulgação acrítica dessas plataformas fortalece ecossistemas digitais tóxicos.
Durante anos, jovens foram expostos a conteúdos produzidos sem preparo, ética ou responsabilidade social, internalizando modelos distorcidos de sucesso. Consolidou-se a ideia equivocada de que fama é profissão, opinião substitui conhecimento e visibilidade equivale a mérito. Isso afetou escolhas educacionais, projetos de vida e valores pessoais, favorecendo comportamentos imediatistas e pouco reflexivos.
A ascensão dos influenciadores também se relaciona à economia da atenção, na qual visibilidade se converte em poder simbólico. Entretanto, esse poder raramente está associado a mérito ou contribuição social. Forma-se um capital baseado em exposição, não em profundidade. Com o tempo, esse capital se desvaloriza, pois o público passa a buscar referências mais consistentes.
Um símbolo dessa transformação é a influenciadora virtual Lu, do Magazine Luiza. Criada com inteligência artificial, ela representa um modelo previsível, controlável e eficiente, sem riscos reputacionais. Sua consolidação indica que, em muitos casos, personagens digitais podem substituir influenciadores humanos, especialmente quando o foco é desempenho comercial.
Nesse cenário, observa-se uma redefinição da influência digital. A lógica da celebridade instantânea perde força, dando lugar a modelos baseados em conhecimento consistente, experiência real, ética comunicacional, utilidade prática e responsabilidade social. A influência deixa de ser espetáculo e passa a ser serviço. Afasta-se da vaidade e aproxima-se da construção de valor coletivo.
Paralelamente, torna-se evidente o papel central dos núcleos familiares. Independentemente de sua configuração, cabe à família exercer a principal função formativa, oferecendo diálogo, orientação e proteção. Não é possível terceirizar às telas o papel de educar. Quando esse protagonismo é negligenciado, abre-se espaço para agentes externos desprovidos de compromisso social.
A chamada era dos influenciadores não termina de forma abrupta, mas por meio de um processo gradual de desilusão. O público aprende a desconfiar, as marcas passam a exigir resultados reais, as plataformas refinam critérios e os criadores são forçados a se reinventar. A fama vazia perde espaço, o conteúdo pobre deixa de sustentar relevância.
O futuro da comunicação digital tende a ser menos sobre aparecer e mais sobre contribuir, menos sobre números e mais sobre sentido. Nesse novo cenário, não sobreviverão os mais populares, mas os mais consistentes, éticos e comprometidos com o desenvolvimento humano e social.
Ismênio Bezerra
Curtidas e seguidores não substituem conhecimento, compromisso e impacto real na vida das pessoas.
O futuro da comunicação digital pertence a quem constrói valor, não a quem apenas disputa atenção.
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Muito Bom! É preciso evitar que se estabeleça uma geração vazia de conteúdo.