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Quando se combate o feminismo, mas se ignora o feminicídio

Feminismo, feminicídio e violência de gênero no Brasil

 

O feminismo é um conjunto de movimentos sociais, políticos e filosóficos que tem como objetivo central a promoção da igualdade entre mulheres e homens em direitos, oportunidades e reconhecimento social. Trata-se de uma luta histórica contra as desigualdades estruturais construídas em sociedades marcadas pelo patriarcado, que historicamente colocaram as mulheres em posição de subordinação.

 

Desde o século XIX, o movimento feminista organiza-se em defesa da emancipação feminina, do direito à educação, ao trabalho, à participação política e à autonomia sobre o próprio corpo. Ao longo do tempo, suas pautas se ampliaram, passando a incluir o enfrentamento à violência de gênero, ao assédio e à desigualdade salarial. A trajetória do feminismo é comumente dividida em “ondas”, que vão da luta pelo voto às atuais discussões sobre interseccionalidade, considerando fatores como raça, classe social e orientação sexual.

 

O movimento não é homogêneo e reúne diversas correntes, como o feminismo liberal, negro, radical e transfeminista. Apesar das diferenças, todas compartilham o compromisso com a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Pensadoras como Olympe de Gouges e Simone de Beauvoir foram fundamentais para demonstrar que as desigualdades entre homens e mulheres não são naturais, mas socialmente construídas.


No Brasil, o feminicídio é definido como o homicídio praticado contra a mulher por razões da condição do sexo feminino, conforme a Lei nº 13.104/2015, que alterou o Código Penal. O crime ocorre em contextos de violência doméstica ou por menosprezo e discriminação à condição feminina. É classificado como crime hediondo, com pena de 12 a 30 anos, podendo ser agravada em situações específicas, como durante a gestação ou em descumprimento de medida protetiva.

 

O enfrentamento ao feminicídio também se articula com a Lei Maria da Penha, que estabelece mecanismos de prevenção, proteção às vítimas e responsabilização dos agressores. Ainda assim, os índices permanecem alarmantes. Em 2025, foram registrados 1.470 casos no país, o equivalente a cerca de quatro mulheres assassinadas por dia. No primeiro semestre do mesmo ano, o Mapa Nacional da Violência de Gênero apontou 718 feminicídios e quase 34 mil casos de estupro.

 

Esses números refletem um problema estrutural, associado à desigualdade de gênero, à fragilidade das redes de proteção, ao medo da denúncia e às falhas institucionais. Muitos casos de violência antecedem o feminicídio sem que haja intervenção eficaz do Estado.


Diante desse cenário, especialistas e organizações defendem políticas públicas integradas, que articulem prevenção, educação, acolhimento e mudança cultural. Campanhas como o Agosto Lilás contribuem para a conscientização, mas ainda são insuficientes frente à gravidade do problema.

 

Assim, o feminismo permanece como uma força social essencial para o enfrentamento da violência de gênero, a promoção da igualdade e a defesa da dignidade humana. Sua atuação é fundamental para que o gênero não determine o valor, as oportunidades ou o direito à vida de nenhuma pessoa, contribuindo para a consolidação de uma sociedade mais democrática, justa e segura.

 

O discurso propositalmente equivocado e conivente.

 

A esse cenário já marcado pela negligência social e institucional soma-se outro fator profundamente sensível e muitas vezes silenciado: o papel de setores religiosos na naturalização e no encobrimento da violência contra mulheres. Em diversas comunidades, discursos baseados em interpretações literalistas e conservadoras da fé reforçam a ideia de que a mulher deve ser “submissa”, “obediente” e “tolerante”, mesmo diante de relações marcadas por agressões, humilhações e ameaças. Sob o argumento da preservação da família e da “vontade divina”, muitas vítimas são orientadas a suportar o sofrimento em silêncio, a perdoar repetidas vezes seus agressores e a não buscar ajuda externa.

 

Esse tipo de orientação, travestido de aconselhamento espiritual, opera como um mecanismo de alienação e controle. Em vez de proteger, fragiliza. Em vez de libertar, aprisiona. Ao sugerir que a violência faz parte de um “teste de fé” ou de um “fardo a ser carregado”, esses discursos deslocam a responsabilidade do agressor para a vítima, transformando a dor em culpa e o medo em resignação. Em muitos casos, lideranças religiosas desencorajam a denúncia, desestimulam o rompimento de relações abusivas e silenciam relatos de violência, contribuindo para que o ciclo se prolongue — até, muitas vezes, culminar no feminicídio.

 

Paralelamente, esses mesmos setores costumam assumir postura frontalmente hostil ao feminismo, apresentado como uma ameaça aos “valores da família”, à “ordem natural” ou à “vontade de Deus”. O movimento que denuncia a violência, reivindica autonomia e busca proteção institucional passa a ser tratado como inimigo moral. Assim, combate-se a linguagem da igualdade enquanto se tolera, relativiza ou esconde a brutalidade cotidiana. O discurso religioso, nesse contexto, deixa de ser instrumento de acolhimento e passa a funcionar como blindagem simbólica da violência.

 

A contradição é profunda: em nome da fé, nega-se a dignidade. Em nome da moral, justifica-se o sofrimento. Em nome da submissão, normaliza-se o risco de morte. Quando igrejas se omitem, silenciam ou culpabilizam mulheres violentadas, tornam-se parte do problema, ainda que não empunhem a arma. Elas contribuem para a construção de um ambiente onde a agressão é tolerada, o agressor é protegido e a vítima é isolada.

 

Esse fenômeno revela que o combate ao feminicídio não pode se limitar às políticas públicas e à atuação policial. Ele exige também uma revisão ética e teológica profunda nos espaços religiosos. Fé que oprime não salva. Espiritualidade que silencia a dor não cura. Religião que legitima a violência não é expressão de amor, mas de poder.

 

Enquanto parte das igrejas continuar atacando o feminismo — que denuncia desigualdades — e protegendo estruturas patriarcais — que produzem vítimas —, o país seguirá preso a um ciclo perverso: mulheres morrem, discursos se repetem, culpados se escondem, e a sociedade finge que não vê. Romper esse ciclo exige coragem não apenas política, mas também moral, espiritual e cultural. Exige escolher, de forma clara, entre defender dogmas que matam ou vidas que importam.

 

Nesse cenário de enfrentamento ao feminismo e de relativização da violência contra mulheres, destaca-se também a atuação do chamado movimento red pill. Inspirado na metáfora do filme Matrix, segundo a qual “tomar a pílula vermelha” significaria enxergar a “verdadeira realidade”, esse movimento reúne grupos e influenciadores que afirmam revelar supostas verdades ocultas sobre relações afetivas, gênero e poder. Na prática, porém, grande parte desse discurso se estrutura a partir da desqualificação das mulheres, da negação das desigualdades históricas e da apresentação do feminismo como inimigo central dos homens. Ao defender uma visão hierárquica das relações, baseada no controle, na desconfiança e na desumanização feminina, o movimento contribui para reforçar estereótipos e legitimar comportamentos abusivos.

 

Ao difundir a ideia de que mulheres seriam manipuladoras, interesseiras ou responsáveis pelos conflitos nas relações, o discurso red pill ajuda a normalizar a hostilidade, o desprezo e a objetificação. Esse ambiente simbólico não produz diretamente o feminicídio, mas cria uma cultura de tolerância à violência, na qual agressões são minimizadas, justificadas ou romantizadas. Ao transformar a desigualdade em “lei natural” e a dominação em estratégia de sobrevivência masculina, o movimento reforça a desresponsabilização dos agressores e enfraquece a empatia pelas vítimas. Assim, soma-se a outras forças sociais que combatem o feminismo enquanto silenciam diante da morte, contribuindo para a manutenção de um sistema que aceita a violência como parte da ordem cotidiana.

 



Botando o dedo na ferida...

 

Há um paradoxo cruel na vida pública brasileira: discute-se “feminismo” como se fosse ameaça, enquanto o feminicídio segue como tragédia cotidiana. E os dados mostram que, muitas vezes, a energia social e política é canalizada para combater a ideia de igualdade — e não para frear a morte.

 

Em 2025, o país registrou recorde de feminicídios: 1.470 casos, o equivalente a cerca de quatro mulheres assassinadas por dia. Os números vêm do Sinesp, base nacional alimentada pelos estados e consolidada pelo Ministério da Justiça, e foram repercutidos amplamente pela imprensa. No mesmo período, o Mapa Nacional da Violência de Gênero, ligado ao Senado, indicou 718 feminicídios apenas no 1º semestre de 2025 e 33.999 estupros contra mulheres no mesmo intervalo. Ou seja: o problema não é pontual, nem raro, nem “caso isolado”. É estrutura.

 

Ainda assim, quando o debate se acende, com frequência ele se acende contra o feminismo — não contra a violência. Isso aparece até na forma como a sociedade se identifica (ou se recusa a se identificar). Pesquisa Datafolha de 2019, sistematizada por uma ONG de referência no tema (Instituto Patrícia Galvão), mostrou que 56% das mulheres com 16 anos ou mais rejeitavam se associar ao feminismo, enquanto 38% se declaravam feministas. O dado é revelador: não se trata de falta de violência para enfrentar; trata-se de estigma sobre o próprio nome do movimento que denuncia essa violência.

 

No ambiente digital, o desequilíbrio fica ainda mais explícito. Um relatório internacional da consultoria LLYC, baseado na análise de 8,5 milhões de mensagens em X/Twitter sobre debates feministas e contrafeministas, descreve um cenário em que a conversa é capturada por ruído, radicalização e ataque — e a própria LLYC destaca que 50% das mensagens sobre “feminismo” são negativas e que a conversa está amplamente polarizada. Em outras palavras: em vez de a comoção se organizar para proteger mulheres, parte considerável do barulho público se organiza para deslegitimar quem pede proteção.

 

E há um sinal institucional importante dessa mesma tendência: por anos, proliferaram no Brasil leis locais para proibir debate sobre “gênero” e a chamada “ideologia de gênero” nas escolas — tema que costuma ser atacado como se fosse a origem do problema, não uma ferramenta de prevenção. O STF derrubou esse tipo de norma, reconhecendo sua inconstitucionalidade. O ponto aqui não é jurídico; é simbólico: em um país com feminicídio recorde, houve municípios que priorizaram proibir palavra e discussão. O alvo virou o vocabulário da igualdade — não a engrenagem da violência.

 

A crítica, portanto, precisa ser dura e didática: combater o feminismo é confortável para quem não quer mexer no mundo como ele é. Dá para gritar contra “militância”, demonizar “agenda”, reduzir tudo a caricatura. Já combater o feminicídio de verdade exige trabalho difícil: prevenção na escola, rede de proteção funcionando, acolhimento, investigação eficiente, responsabilização sem falhas, orçamento, serviço público treinado, dados consistentes, políticas contínuas, além de uma mudança cultural que fere privilégios e confronta masculinidades violentas. Isso não rende meme fácil. Não dá a mesma sensação de “vitória” simbólica. Não oferece um inimigo abstrato para odiar. Exige maturidade social.

 

No fim, a pergunta incômoda permanece: por que tanta gente se sente mais ameaçada por mulheres exigindo igualdade do que por mulheres sendo assassinadas? Enquanto parte do debate continuar tratando feminismo como inimigo — e não como uma lente de realidade — o país seguirá fazendo aquilo que já faz: discutindo muito a palavra, e protegendo pouco a vida.


Ismênio Bezerra

O feminismo não é uma ameaça à sociedade, mas uma resposta ética e necessária a um país que ainda falha em proteger a vida e a dignidade das mulheres.


Combater o feminicídio exige mais do que leis: exige consciência, educação, coragem política e o fortalecimento de um movimento que denuncia a violência antes que ela se transforme em morte.


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