Práticas e discursos involutivos da machosfera.
- Ismênio Bezerra
- 6 de mar. de 2023
- 5 min de leitura
Atualizado: 7 de mar.
Uma análise sobre a doença social que insiste na misoginia como princípio.

O texto propõe uma análise cuidadosa e crítica sobre um tema que volta a ganhar visibilidade no debate público, esclarecendo conceitos e oferecendo um diagnóstico social necessário.
Recentemente, a atriz, humorista e roteirista Lívia La Gatto denunciou publicamente o coach e influenciador Thiago Schutz por ameaças feitas contra ela em suas redes sociais. Schutz é conhecido por comercializar cursos online voltados à masculinidade e à autoafirmação masculina, reunindo milhares de seguidores na internet.
Segundo o relato de Lívia, as ameaças surgiram após ela publicar críticas ao discurso defendido por Schutz, argumentando que esse tipo de narrativa pode ser tóxica e estimular comportamentos abusivos e violentos. Em resposta, o influenciador teria feito comentários agressivos e ameaçadores, chegando a insinuar possíveis prejuízos à carreira profissional da atriz.
O episódio acende um alerta importante sobre como discursos ligados à masculinidade tóxica podem resultar em práticas de intimidação e violência simbólica — e, em alguns casos, física — contra mulheres que se posicionam criticamente. Schutz não é um caso isolado: diversos influenciadores propagam ideias semelhantes, o que exige atenção constante da sociedade quanto aos riscos desse tipo de conteúdo.
As ameaças sofridas por Lívia La Gatto são inaceitáveis e devem ser tratadas com a seriedade necessária pelas autoridades competentes. Cabe ao sistema de justiça investigar os fatos e adotar medidas que garantam a integridade física e emocional da vítima, bem como de outras mulheres potencialmente expostas a esse tipo de violência.
Nesse contexto, torna-se fundamental que a sociedade se posicione de forma clara contra a masculinidade tóxica e contra discursos de autoafirmação masculina usados como justificativa para práticas abusivas. O enfrentamento da violência de gênero exige a união de homens e mulheres na construção de uma cultura baseada no respeito, na igualdade e na dignidade humana.

Outro episódio que ilustra de forma trágica essa realidade é o assassinato de Yanny Brena, presidente da Câmara Municipal de Juazeiro do Norte, aos 26 anos. Tudo indica que se trate de um caso de feminicídio — crime motivado pelo fato de a vítima ser mulher. As investigações apontam como principal suspeito o namorado da parlamentar, Rickson Pinto.
Relatos indicam que o casal teria discutido pouco antes do crime e que o suspeito foi visto deixando o local com roupas sujas de sangue. Ainda que as motivações específicas não estejam totalmente esclarecidas, o caso levanta a hipótese de que o assassinato esteja relacionado ao machismo estrutural e à incapacidade de aceitar a autonomia, o protagonismo e o espaço de poder ocupados por uma mulher jovem e politicamente ascendente.
O machismo permanece como um dos pilares da violência de gênero, sustentado pela ideia de que mulheres não devem exercer poder, autonomia ou voz pública. Combatê-lo exige uma mobilização coletiva para a construção de uma cultura baseada na igualdade, no respeito e na convivência democrática entre os gêneros.
O feminicídio representa uma das expressões mais extremas dessa violência e demanda respostas firmes do Estado. A responsabilização dos autores desses crimes é essencial não apenas para a justiça em relação às vítimas, mas também como mensagem clara de que tais atos não serão tolerados.
Nesse cenário, ganha relevância o debate sobre a chamada Machosfera — também conhecida como Manosfera ou Movimento Masculinista. Trata-se de uma subcultura formada majoritariamente por homens que se colocam em oposição ao feminismo, defendendo o machismo, o patriarcado e a ideia de superioridade masculina. Esses grupos promovem uma lógica de autoafirmação individualista, frequentemente dissociada de vínculos afetivos, familiares ou responsabilidades sociais.
A Machosfera reflete e reforça uma cultura misógina que nega direitos fundamentais às mulheres, inclusive o direito à vida. Ao sustentar a noção de dominação masculina, contribui diretamente para a perpetuação da violência de gênero, do feminicídio e de outras formas de opressão.
Esse discurso radical também afronta os princípios dos direitos humanos, ao negar dignidade e igualdade àqueles que não se enquadram em um modelo autoritário e excludente de masculinidade. Ao mesmo tempo, é importante destacar que a luta por igualdade de gênero não busca diminuir ou oprimir os homens, mas construir uma sociedade em que todos tenham os mesmos direitos, oportunidades e segurança.
A necessidade de autoafirmação aparece como um dos motores centrais da adesão à Machosfera. Muitos homens sentem-se pressionados por padrões sociais que associam masculinidade ao controle, ao poder e à dominação. Essa lógica gera comportamentos tóxicos, hostilidade ao feminismo e tentativas de controle sobre mulheres e outros homens.
O feminismo, por sua vez, é reafirmado como um movimento legítimo e essencial, voltado à igualdade de direitos, ao respeito, à autonomia e à justiça social. Ele não propõe supremacia feminina, mas sim equidade e dignidade para todas as pessoas, independentemente de gênero.
Algumas instituições religiosas, de forma consciente ou não, acabam reforçando elementos do discurso da Machosfera ao defender modelos familiares baseados na autoridade masculina e na submissão feminina. Isso contribui para interpretações distorcidas dos papéis sociais e perpetua relações de poder desiguais.
A cultura promovida pela Machosfera representa uma involução social, pois nega conquistas históricas das mulheres e legitima práticas de violência e discriminação. Ainda assim, é fundamental reconhecer que nem todos os homens compartilham dessa visão, assim como nem todas as igrejas a reproduzem. Muitos homens rejeitam essa masculinidade tóxica e atuam ativamente na promoção da igualdade, do respeito e da diversidade.
Esses homens compreendem que o machismo prejudica toda a sociedade e que a masculinidade não precisa ser construída como disputa de poder. É possível ser forte, respeitado e íntegro sem dominar ou controlar o outro.
O enfrentamento da Machosfera e do machismo é, portanto, uma tarefa coletiva e urgente. Conscientizar, desconstruir estereótipos e promover novas referências de convivência são passos fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa, segura e igualitária.
A igualdade de gênero é uma causa que diz respeito a todos. Homens e mulheres precisam caminhar juntos para assegurar que cada pessoa possa viver plenamente, com dignidade, liberdade e sem medo — independentemente do gênero.
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Ismênio Bezerra
Bibliografia
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