Preservando a Cultura e as Tradições do São João: Um Grito em Defesa da Identidade Cultural
- Ismênio Bezerra
- 27 de jun. de 2023
- 8 min de leitura
A cultura de um povo representa sua identidade, suas crenças, seus valores e suas expressões artísticas.
Ela abrange um conjunto de conhecimentos, costumes, manifestações religiosas e festividades que são transmitidos ao longo das gerações.

A arte é uma forma de expressão criativa e emocional que reflete a cultura de um povo, seja por meio da música, dança, teatro, literatura, pintura ou escultura. A estética está relacionada à apreciação da beleza e ao cuidado com a forma e o estilo das expressões artísticas. Já as tradições são práticas culturais que se mantêm vivas ao longo do tempo, sendo transmitidas de geração em geração, e englobam rituais, festividades e celebrações que marcam a identidade de uma região. Por exemplo, a Folia de Reis, a Congada, o Bumba meu Boi, a Festa do Divino, o Círio de Nazaré e a festa do peão são expressões culturais que representam a diversidade e a riqueza cultural do Brasil, cada uma com suas peculiaridades e símbolos que encantam e emocionam as pessoas em diferentes localidades do país. Essas manifestações artísticas e tradicionais são fundamentais para preservar a memória e a identidade cultural de um povo, enriquecendo o patrimônio cultural do Brasil.
A festa de São João, também conhecida como festejo junino, é uma das mais tradicionais celebrações populares do Brasil, realizada em homenagem a São João Batista, considerado o santo padroeiro das festividades juninas. Essa festa ocorre no mês de junho, especialmente nos dias 23 e 24, marcando o período das festas juninas.
O festejo junino é caracterizado por uma série de elementos que remetem à cultura nordestina, embora tenha se espalhado por todo o país. Durante essa festividade, é comum encontrar danças típicas como quadrilhas, com suas coreografias elaboradas e figurinos coloridos, embaladas ao som de músicas tradicionais do forró e do baião. Além disso, as comidas e bebidas típicas desempenham um papel importante na festa, com destaque para o milho, presente em diversas preparações como pamonha, canjica, bolo de milho e pipoca.

As festas de São João são também marcadas por elementos decorativos que remetem à vida no campo, como bandeirinhas coloridas, balões, fogueiras e palhas espalhadas pelo chão. Esses elementos criam uma atmosfera acolhedora e festiva, resgatando tradições e simbolismos ligados à vida rural e agrícola.
Além do aspecto religioso, a festa de São João é uma oportunidade para as pessoas se reunirem, celebrarem a cultura e expressarem sua alegria. É um momento de valorização das tradições, de reforçar os laços comunitários e de fortalecer a identidade cultural de cada região. As festas juninas são um verdadeiro espetáculo de cores, sabores e ritmos, proporcionando diversão e entretenimento para pessoas de todas as idades.
O São João é uma festividade rica em cultura e tradição que permeia o coração do Nordeste brasileiro. Porém, nos últimos anos, temos testemunhado a invasão de ritmos estrangeiros e a presença cada vez maior do sertanejo nas festas juninas, desvirtuando a essência dessa celebração tão importante para nossa identidade cultural. Inspirados pelo saudoso Ariano Suassuna, defensor incansável da cultura popular, é nosso dever levantar a voz em defesa do São João autêntico, repleto de estética e tradições que resistem ao tempo.
A cultura enlatada, sem estética e desprovida de tradição, tem avançado com força avassaladora, impondo-se em detrimento da nossa rica herança cultural. As festas juninas, que outrora eram embaladas pelo forró, xote e baião, agora são invadidas por ritmos que pouco têm a ver com as nossas raízes. Essa descaracterização cultural é um reflexo da indústria do entretenimento, que prioriza o lucro em detrimento da preservação da nossa identidade.
A presença massiva do sertanejo nas festas juninas tem gerado críticas e descontentamento entre os amantes do São João tradicional. Não se trata de negar a pluralidade musical, mas sim de valorizar a riqueza cultural que temos em nossas mãos. O São João é uma expressão da alma nordestina, uma celebração que exalta nossas tradições, nossas comidas típicas, nossas danças e nossas vestimentas. É um momento de reafirmar nossa identidade e de fortalecer os laços comunitários que nos conectam há gerações.
A presença de estilos musicais como o sertanejo e o funk nas festas de São João tem gerado debates e críticas, principalmente por parte dos defensores da cultura popular. A justificativa para isso reside no fato de que esses gêneros musicais possuem características e contextos culturais distintos, que podem descaracterizar a essência da festa e diluir a manifestação da cultura popular.
Quando outros estilos musicais, como o sertanejo e o funk, são inseridos nas festas de São João, há uma diluição da identidade cultural e uma descaracterização do evento. Isso ocorre porque esses gêneros musicais possuem origens e características diferentes, que não se alinham necessariamente com o contexto e o propósito da festa. A inclusão de tais estilos pode desviar o foco da manifestação da cultura popular, descaracterizando-a e transformando-a em um evento mais comercial e genérico.
Além disso, é importante ressaltar que a música desempenha um papel fundamental na transmissão e preservação das tradições culturais. Ela carrega consigo valores, histórias e símbolos que são passados de geração em geração. Ao substituir ou sobrepor o forró, por exemplo, por outros estilos musicais, perde-se a oportunidade de valorizar e fortalecer a cultura popular, além de diminuir a conexão emocional e histórica que existe entre as músicas tradicionais e o público.

Ariano Suassuna, em vida, foi um dos maiores defensores da cultura popular. Ele acreditava que a cultura de um povo é sua maior riqueza, e que preservá-la é um dever de todos. Nesse contexto, é fundamental resgatar e valorizar as manifestações culturais genuínas do São João, incentivando artistas locais, bandas de forró tradicional e grupos de quadrilha. É necessário apoiar as festas juninas autênticas, que mantêm viva a tradição e enchem nossos corações de alegria e pertencimento.
Luiz Gonzaga, conhecido como o "rei do baião", é uma figura icônica e inseparável do São João. Sua música e sua persona representam o espírito contagiante e festivo dessa tradicional celebração junina. Gonzaga, com seu talento e carisma, popularizou o forró e levou a cultura nordestina para todo o Brasil. Sua sanfona, instrumento principal de suas composições, é o símbolo sonoro dessa festividade, trazendo alegria e movimento aos arrasta-pés e quadrilhas juninas. O legado deixado por Luiz Gonzaga perdura até hoje, influenciando gerações de músicos e mantendo viva a identidade cultural do São João, seja no Nordeste ou em qualquer parte do país.

Através da influência de Luiz Gonzaga e das festas de São João, fomos presenteados com uma seleção de artistas maravilhosos que mantêm viva a tradição e a magia do forró e do baião. Dominguinhos, considerado o maior herdeiro musical de Gonzaga, encantou o público com seu talento único e sua interpretação emocionante. A música do forró é enriquecida por uma infinidade de talentosos cantores e bandas que têm deixado sua marca nas festas de São João e além. Artistas como Lucy Alves, com sua voz cativante e virtuosidade na sanfona, trazem uma nova perspectiva para o gênero. Chambinho do Acordeon, conhecido por interpretar o papel de Luiz Gonzaga no cinema, demonstra maestria no acordeon e mantém viva a essência do baião. Sivuca, Mestrinho, Oswaldinho, Mário Zan, Voninho, Cezinha do Acordeon, Dorgival Dantas, Waldonys e muitos outros músicos habilidosos seguiram os passos de Gonzaga, acrescentando inovações e mantendo a sonoridade autêntica do forró. Com sua música envolvente e autêntica, esses artistas brilham nos palcos, preservando a riqueza cultural das festas de São João e honrando o legado imortal de Luiz Gonzaga.

As festas de São João no Nordeste são conhecidas por sua rica culinária, repleta de pratos deliciosos e tradicionais que fazem parte da celebração. Os pratos mais importantes e populares das festas juninas nordestinas incluem:
Canjica: é um mingau de milho, que fica bem amarelinho, servido frio ou quente com canela em pó por cima. É um prato perfeito e o mais importante dos festejos juninos.
Pamonha: uma iguaria feita de massa de milho verde, envolta em folhas de milho e cozida. Pode ser doce ou salgada e é um dos alimentos mais emblemáticos das festas juninas.
Cuscuz: uma preparação feita com farinha de milho e outros ingredientes, como carne seca, queijo, ovos, legumes e temperos. É um prato versátil e muito apreciado na região nordeste.
Pé de moleque: uma mistura crocante de amendoim torrado com rapadura ou açúcar mascavo. É uma das opções mais populares de doce nas festas de São João.
Bolo de milho: um bolo feito com milho verde, que pode ser adoçado ou salgado. É uma delícia irresistível e tradicional nas festividades juninas.
Quentão: uma bebida quente feita à base de cachaça, açúcar, especiarias como cravo e canela, e gengibre. É uma opção bastante apreciada para aquecer e animar os festejos juninos.
Mungunzá: uma iguaria feita com grãos de milho branco cozidos com leite de coco, canela, cravo e açúcar. É uma versão mais cremosa e adocicada da canjica, muito apreciada durante as festividades.
Milho cozido: os grãos de milho são cozidos em água com um toque de sal, resultando em um prato simples, porém saboroso e muito tradicional das festas juninas. É comum encontrar barraquinhas vendendo milho cozido nas festividades.
Milho assado: espigas de milho são grelhadas na brasa, proporcionando um sabor defumado e irresistível. O milho assado é uma opção deliciosa e prática para saborear durante as festas juninas, sendo apreciado por pessoas de todas as idades.

O São João é uma festa amplamente comemorada em todo o Nordeste do Brasil, sendo uma das celebrações mais tradicionais e aguardadas da região. No entanto, uma disputa saudável e acirrada se estabelece entre duas cidades: Caruaru, em Pernambuco, e Campina Grande, na Paraíba, em busca do título de maior e melhor São João do mundo.
Caruaru, conhecida como a "Capital do Forró", apresenta uma festa grandiosa, com diversas atrações musicais, forró pé de serra, comidas típicas, quadrilhas, apresentações culturais e o famoso Pátio do Forró, onde milhares de pessoas se reúnem para dançar e celebrar. A cidade é reconhecida pela sua hospitalidade e pela preservação das tradições juninas, encantando visitantes de todas as regiões.
Por outro lado, Campina Grande se destaca com o título de "Maior São João do Mundo", oferecendo uma festa que se estende por todo o mês de junho. A cidade recebe um número expressivo de turistas e conta com uma programação diversificada, que inclui shows de artistas renomados, festivais de quadrilhas, fogueiras gigantes, comidas típicas e a tradicional corrida de jegue. A animação e a grandiosidade dos festejos em Campina Grande são inegáveis.
A disputa entre Caruaru e Campina Grande como maior e melhor São João do mundo é uma manifestação do orgulho e do amor que essas cidades têm por suas tradições e pela cultura junina. Ambas proporcionam experiências únicas, enaltecendo a música, a gastronomia, as vestimentas e as festividades típicas desse período. Independentemente da escolha, o importante é valorizar e celebrar a riqueza cultural que o São João proporciona, mantendo viva essa tradição tão amada pelo povo nordestino.
O São João é uma festa que tem tudo para encantar e envolver as pessoas. Com sua música contagiante, comidas típicas deliciosas, vestimentas características, festivais de quadrilhas animados, um legado cultural importante, tradições preservadas e uma paixão popular que aquece os corações. É uma celebração completa, que une diferentes elementos e proporciona momentos de alegria, diversão e conexão com a cultura e as raízes do povo.

Defender a cultura popular é um ato de resistência contra a homogeneização cultural imposta pela globalização. É resgatar a memória de nossos antepassados, honrar suas tradições e legar aos nossos descendentes um patrimônio cultural vivo e pulsante. O São João é uma festa que pulsa em nossas veias, que nos conecta com nossas raízes e que nos faz sentir orgulho de sermos nordestinos. Não permitamos que a cultura enlatada prevaleça sobre nossas tradições. Não podemos permitir que a cultura popular seja anulada pela comercialização desenfreada e pelo apelo às massas.
Nossas festas juninas são um verdadeiro tesouro cultural, uma herança que deve ser preservada e transmitida às próximas gerações. Vamos aplaudir o forró pé-de-serra, os passos da quadrilha, o cheiro das comidas típicas e o som do triângulo, zabumba e sanfona, que embalam a alegria e a festividade dessa celebração. É fundamental reconhecer o valor das tradições, da estética e da autenticidade do São João.
O São João é muito mais do que apenas uma festa. É uma manifestação cultural que exala a essência do povo nordestino, sua alegria contagiante, sua hospitalidade e seu amor pela tradição. É hora de resgatar e fortalecer nossas raízes, mantendo viva a chama do São João autêntico em cada comunidade, em cada cidade, em cada coração que pulsa com orgulho e devoção.
Viva o São João, viva a cultura nordestina!
Viva Gonzagão!
Viva Ariano Suassuna!
Ismênio Bezerra
O São João é um verdadeiro tesouro cultural, que nos conecta às nossas raízes, resgatando tradições e celebrando a diversidade do povo nordestino.
Que o São João seja sempre um momento de valorização da nossa cultura, uma festa que nos enche de alegria e nos une em torno de música, dança e comidas típicas, fortalecendo nossa identidade e transmitindo o legado de gerações passadas.
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