Os bancos não aprenderam nada com a crise de 2008
- Ismênio Bezerra
- 17 de mar. de 2023
- 6 min de leitura
A nova crise bancária que afetou recentemente bancos como o Silicon Valley Bank, Signature Bank e Credit Suisse, evidencia a contradição entre a busca por liberdade econômica e a necessidade de regulação e responsabilidade social das empresas do setor financeiro.
Convidamos você a revisitar a crise de 2008 e entender como a nova crise bancária de 2023 afeta o mundo globalizado e as pessoas mais simples.

A crise financeira de 2007-2008 foi uma das mais graves crises econômicas globais dos últimos tempos, afetando principalmente o setor financeiro e imobiliário dos Estados Unidos. Ela foi precipitada pela falência do banco de investimento norte-americano Lehman Brothers, fundado em 1850, que gerou um efeito dominó em todo o sistema financeiro mundial.
A crise teve origem no mercado imobiliário dos Estados Unidos, que havia experimentado um grande boom nos anos anteriores. Bancos e outras instituições financeiras passaram a oferecer hipotecas a pessoas com histórico de crédito duvidoso, sem exigir uma garantia adequada. Essas hipotecas foram se acumulando em pacotes de investimento complexos, conhecidos como CDOs (collateralized debt obligations), que eram vendidos a investidores em todo o mundo.
A bolha imobiliária estourou em 2007, quando muitos dos mutuários começaram a falhar no pagamento das hipotecas, levando a uma queda nos preços dos imóveis. Isso gerou perdas significativas para os investidores em CDOs e outros títulos financeiros relacionados ao setor imobiliário. O Lehman Brothers, que havia investido pesadamente em hipotecas de alto risco, foi uma das instituições financeiras mais afetadas.
A falência do Lehman Brothers em setembro de 2008 teve um efeito dominó no sistema financeiro mundial, levando a uma crise de confiança entre os bancos. Muitos bancos passaram a ter dificuldades em obter financiamento, o que levou a uma escassez de crédito em todo o mundo. O resultado foi uma forte desaceleração da economia global, com aumento do desemprego e queda nos investimentos.
Para evitar um colapso total do sistema financeiro, governos em todo o mundo tomaram medidas drásticas, como a injeção de bilhões de dólares em ajuda financeira aos bancos e a adoção de políticas de estímulo econômico. Essas medidas ajudaram a evitar uma depressão econômica global, mas tiveram efeitos duradouros sobre as economias mundiais. Alguns dos bancos mais notáveis que foram salvos durante a crise incluem:
Bank of America - recebeu um pacote de ajuda do governo dos EUA em 2008 que incluiu uma injeção de capital de US $ 25 bilhões.
Citigroup - também recebeu ajuda do governo dos EUA em 2008, com um pacote de ajuda que incluía injeção de capital e garantias de empréstimos.
JPMorgan Chase - apesar de não ter recebido injeções diretas de capital do governo dos EUA, adquiriu o banco de investimentos Bear Stearns, que estava à beira da falência, com ajuda do governo em 2008.
Wells Fargo - recebeu uma injeção de capital do governo dos EUA em 2008 como parte do programa de resgate do TARP.
Royal Bank of Scotland (RBS) - o governo britânico nacionalizou o banco em outubro de 2008, após uma injeção de capital de £ 20 bilhões.
Outros bancos também foram salvos durante a crise financeira global, incluindo Goldman Sachs, Morgan Stanley, Lloyds Banking Group, entre outros.
Um filme muito bom que retrata a crise e explica didaticamente seus motivos, como virou uma bola de neve, como os bancos fraudaram a economia mundial e ainda assim foram salvos, depois de deixar milhões de pessoas em situação de pobreza e miséria, é A Grande Aposta. Recomendo assistir.

Uma das principais medidas adotadas pelos governos foi a injeção de capital nos bancos, ou seja, a compra de ações dos bancos pelos governos. Isso ajudou a aumentar a liquidez dos bancos e a restaurar a confiança dos investidores no sistema financeiro. Além disso, os governos também concederam empréstimos e garantias financeiras aos bancos para ajudá-los a superar as dificuldades financeiras.
Outra medida adotada pelos governos foi a nacionalização de bancos que estavam em risco de falência. Isso permitiu que os governos assumissem o controle dos bancos e os reestruturassem para torná-los mais saudáveis financeiramente.
Além disso, os governos adotaram políticas de estímulo econômico para ajudar a impulsionar a economia. Isso incluiu a redução das taxas de juros e a implementação de políticas fiscais, como a redução de impostos e o aumento dos gastos públicos. Essas políticas ajudaram a estimular a demanda por empréstimos e a impulsionar o investimento.
No entanto, a ajuda aos bancos também gerou críticas de que o dinheiro público estava sendo usado para salvar instituições financeiras que haviam sido responsáveis pela crise. Muitas pessoas argumentaram que os bancos deveriam ter sido deixados falir para enfrentar as consequências de suas próprias ações. No entanto, os governos argumentaram que deixar os bancos falirem teria levado a um colapso total do sistema financeiro e causado danos ainda maiores à economia global.
A irresponsabilidade se repete

Nos últimos dias, o mundo financeiro foi abalado por uma série de crises bancárias, que começaram com o colapso do Silicon Valley Bank, o 16º maior credor dos Estados Unidos. Isso foi seguido pela intervenção no Signature Bank de Nova York e pelo desabamento das ações do gigante suíço Credit Suisse, que anunciou ter encontrado "fraquezas" em seus relatórios financeiros.
Essas crises são preocupantes, pois, embora sejam problemas localizados, qualquer crise em um banco pode contaminar todas as outras instituições financeiras do país ou até no exterior. Isso acontece porque os bancos emprestam dinheiro entre si, portanto, a quebra de uma instituição pode gerar problemas financeiros para as demais.
O Silicon Valley Bank era conhecido por financiar empresas de tecnologia, mas enfrentou problemas com seus empréstimos, o que afetou seu balanço. Além disso, a corrida de clientes para sacar seus depósitos levou a uma queda significativa na liquidez do banco, forçando-o a entrar em processo de liquidação.
No caso do Signature Bank de Nova York, a intervenção foi tomada para garantir a estabilidade financeira da instituição, que também estava enfrentando dificuldades. Embora a intervenção não tenha sido diretamente relacionada aos problemas de liquidez, a medida foi considerada necessária para evitar que a crise se espalhasse.
Já o Credit Suisse, um dos maiores bancos do mundo, enfrentou problemas depois que um cliente americano não conseguiu honrar seus compromissos, levando a perdas significativas. A notícia levou a uma corrida de clientes para sacar seus depósitos, e o banco teve que recorrer a empréstimos de emergência para garantir sua liquidez.
Essas crises bancárias são um lembrete do quão vulnerável é o setor financeiro global. Quando um sentimento de medo se espalha entre correntistas de diversos bancos, pode haver uma corrida em massa de clientes para sacarem seus depósitos. Isso pode levar a uma quebradeira mais ampla no setor, com consequências para todas as economias.
As autoridades monetárias de todo o mundo estão monitorando de perto essas crises e tomando medidas para garantir a estabilidade financeira. O Banco Central Europeu (BCE) e o Federal Reserve dos EUA já emitiram comunicados dizendo que estão acompanhando de perto os desenvolvimentos e prontos para intervir, se necessário.
No entanto, as crises bancárias recentes mostram que ainda há muito a ser feito para fortalecer o setor financeiro global e garantir que crises bancárias não se transformem em crises econômicas mais amplas. Os bancos precisam ser mais transparentes em relação às suas operações e riscos, e as autoridades reguladoras precisam ser mais rigorosas na supervisão das instituições financeiras.
Em última análise, é vital que as lições da crise financeira global de 2007-2008 sejam aprendidas e aplicadas para garantir a estabilidade financeira e a saúde da economia global.

Implicando
Os bancos sempre buscaram operar com total liberdade econômica e sem regulação, em busca do lucro máximo. Não é crime ter lucro, crime é lucrar com a miséria de milhões. Eles - os bancs e o mercado - defendem o Estado mínimo, que se baseia na teoria ultra-liberal, que defende que o Estado deve interferir o mínimo possível na economia e sequer se responsabilizar com as questões sociais. Essa é uma contradição evidente no sistema financeiro e na ideologia ultra-liberal que muitos bancos defendem.
No entanto, quando esses mesmos bancos enfrentam dificuldades, eles exigem que o Estado assuma a responsabilidade de salvá-los e, muitas vezes, sem qualquer contrapartida ou punição pelos erros que cometeram. Muitos desses bancos, que defendiam o Estado mínimo e a liberdade econômica total, tiveram que ser resgatados pelos governos para evitar um colapso total do sistema financeiro.
Essa situação evidencia a importância da regulação financeira e da responsabilidade social das empresas. O Estado não pode simplesmente deixar os bancos operarem sem qualquer tipo de regulação, pois isso pode levar a crises financeiras que têm um impacto negativo sobre toda a economia e a sociedade. É importante que o Estado tenha um papel ativo na regulação financeira e na proteção dos interesses dos cidadãos, ao mesmo tempo em que incentiva o crescimento econômico e a inovação.
Ismênio Bezerra
O sistema financeiro e o mercado adoram pregar o Estado mínimo, mas quando seus bancos e donos estão em crise, eles imploram para os governos salvá-los. Querem liberdade econômica para lucrar, mas socialismo para serem salvos.
No sistema capitalista, o mercado tem como única preocupação o lucro e a busca por operar livremente, mas sente-se incomodado quando o Estado investe em políticas sociais de equidade e desenvolvimento justo e solidário.
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