O negócio da fé: entre a perda de renda e o ódio!
- Ismênio Bezerra
- 6 de jun. de 2023
- 7 min de leitura
Aprofundando o debate sobre como a fé se tornou um grande negócio e como a teologia da prosperidade também se tornou a teologia do ódio.
Neste artigo, vamos aprofundar o debate sobre como a fé se tornou um grande negócio, analisando o uso de metodologias coach e a teologia da religiosa pelas religiosas para atrair fiéis, bem como a diminuição do acolhimento aos "diferentes" e o desvio do ensinamento de Jesus em favor do conservadorismo de extrema direita.

Ao longo dos anos, a fé tem sido explorada como um grande negócio por certas instituições religiosas, utilizando-se de diversas estratégias para atrair fiéis e obter recursos financeiros. Um desses exemplos é a teologia da supervisão, uma corrente religiosa que prega a ideia de que a fé e as ofertas generosas podem trazer riqueza material e sucesso na vida dos fiéis. Essa abordagem tem encontrado um espaço considerável nas rádios e TVs, que se tornaram poderosos meios de influência para alcançar um público maior e aumentar a influência dessas instituições.
Uma das táticas utilizadas para persuadir os telespectadores, ouvintes e presentes nos cultos é a encenação de curas e milagres. Horas intermináveis são dedicadas a essas performances, com o intuito de cativar e convencer o público de que as dádivas prometidas podem se tornar realidade. Essas encenações são cuidadosamente inspiradas para gerar emoções intensas e criar a sensação de que algo sobrenatural está conectado, tornando-se mais difícil para as pessoas discernirem entre o genuíno e o falso.
A lógica por trás da teologia da supervisão é uma estratégia de marketing que busca criar uma expectativa de que a doação financeira é um investimento que gera retornos multiplicados em forma de obediência e supervisão. As igrejas que adotam essa abordagem incentivam seus seguidores a doarem generosamente, muitas vezes chegando a doar tudo o que recebem em um mês de trabalho, na esperança de alcançar essas supostas "dádivas". No entanto, muitas pessoas acabam enriquecendo os falsos líderes, que se beneficiam do dinheiro arrecadado em nome da fé.
Nos últimos anos, testemunhamos mudanças significativas no mundo religioso, especialmente entre os evangélicos, conforme revelado pelas reportagens citadas. O cenário atual é alarmante, pois indica que o negócio da fé está passando por um período de instabilidade.
Uma estratégia amplamente adotada pelas igrejas modernas para atrair fiéis é a utilização de metodologias coach. Essas abordagens aplicam os princípios do coaching (receita pronta) com o objetivo de promover o crescimento individual e espiritual dos membros, mas que não tem em consistência. Embora, em sua essência, essas técnicas possam pontualmente trazer benefícios, há casos em que elas são distorcidas e manipuladas para fins de controle psicológico.
Outro aspecto presente nesse modelo de igreja é a teologia da prosperidade, também conhecida como teologia da proteção e da satisfação. Essa doutrina prega que a fé e as ofertas financeiras dos fiéis são capazes de gerar prosperidade material e sucesso na vida. A abordagem principal está na busca por riquezas e bênçãos materiais, negligenciando uma compreensão mais profunda dos princípios éticos e espirituais.
A teologia da prosperidade é frequentemente utilizada pelas igrejas como um mecanismo para encher seus cofres e promover seus interesses financeiros. Essa abordagem religiosa enfatiza a ideia de que riqueza material é um sinal de bênção divina, e incentiva os fiéis a doarem generosamente para receberem bênçãos materiais em troca. No entanto, essa mentalidade cria uma dinâmica em que quanto mais alienados e fundamentalistas para os membros, mais lucrativa se torna a igreja-empresa que tem a fé como negócio. A exploração das esperanças e vulnerabilidades dos fiéis muitas vezes resulta em um ciclo vicioso de doações e enriquecimento dos líderes religiosos, enquanto os membros ficam presos em uma busca incessante por material externo, muitas vezes em detrimento de outras necessidades essenciais.
Uma preocupação nada cristã dos falsos líderes religiosos é afastar das igrejas as pessoas diferentes. Em vez de acolher e promover o respeito às diferenças, essas instituições parecem estar se tornando cada vez mais seletivas em relação aos seus fiéis. A busca por um público-alvo específico, geralmente de classe média e alta, leva as igrejas a excluir aqueles que não se enquadram nos padrões. Essa exclusão se manifesta não apenas em termos socioeconômicos, mas também em relação à orientação sexual, identidade de gênero e até mesmo posicionamentos políticos divergentes. Ao rejeitar aqueles considerados "diferentes", perderá a oportunidade de serem espaços de inclusão e transformação social, limitando sua atuação a um grupo restrito.
Outro aspecto preocupante é a crescente influência do conservadorismo de extrema direita nas igrejas. Em vez de seguir os ensinamentos de Jesus, que pregava o amor, a justiça social e o acolhimento dos marginalizados, no Brasil e em outros países a extrema direita se infiltrou nas igrejas, com discursos moralistas, preconceituosos, com ideias conservadoras e intolerantes ocupando a centralidade do discurso religioso. Ao desviar o foco do ensinamento de Jesus em prol de uma agenda política e ideológica, essas igrejas distorcem a mensagem central do cristianismo. Além disso, também tiram do centro da discussão política o problema da economia, do abismo social, da falta de emprego, moradia digna e tantos outros problemas sociais reais que afetam nossa gente, promovendo somente uma agenda messiânica fundamentalista que transformam pessoas que pensam diferente em inimigos, atingindo inclusive a estabilidade dos relacionamentos familiares.
Ruptura

As Igrejas do Pastor Valdemiro Santiago, como a Igreja Mundial do Poder de Deus, e a Igreja Batista da Lagoinha, liderada pelo Pastor André Valadão, foram alvo de alguns escândalos ao longo dos anos. É importante ressaltar que esses casos específicos não refletem todas as igrejas ou líderes religiosos, mas são exemplos de situações controversas que ocorreram dentro dessas instituições.
No caso da Igreja Mundial do Poder de Deus, o Pastor Valdemiro Santiago foi envolvido em discussões relacionadas a questões financeiras. De 2012 a 2023, houve denúncias comprovadas de enriquecimento ilícito e suposta manipulação dos fiéis para obter doações expressivas. Além disso, a igreja também foi acusada de prometer curas milagrosas em troca de contribuições monetárias, levantando questionamentos sobre práticas éticas, perda de bens e até de um jatinho.
No que diz respeito ao Pastor André Valadão, mais de dez igrejas que eram dirigidas com a orientação eclesiástica e o padrão de gestão financeiro da Igreja Batista da Lagoinha se desligaram da denominação. O desligamento de algumas igrejas da Lagoinha, desde a ascensão de André Valadão como líder é algo que precisa ser observado.
A liderança de André Valadão trouxe mudanças na estratégia e na abordagem da igreja, focando mais em aspectos comerciais e empresariais, como o lançamento de produtos, parcerias com marcas e busca por um crescimento financeiro expressivo. Essa nova orientação, voltada para o aspecto empresarial, pode ter gerado desconforto em algumas igrejas que não se identificaram com essa abordagem e que podem ter prioridades diferentes em relação aos aspectos eclesiais. No entanto, com base nos jornais, embora neguem, é perceptível o choque de interesses econômicos.
A ruptura e perda de fiéis tanto da Igreja Mundial do Poder de Deus como na Igreja Batista da Lagoinha, mostram que uns abriram os outros e outros discordam do modelo de negócio. Mas não são só elas que vivem momentos difíceis de rebeldia e ruptura.
Como a teologia da prosperidade também se tornou a teologia do ódio.
Recentemente, um discurso repleto de ódio e intolerância – que pode ser visto nas redes sociais e no Youtube – ganhou destaque na mídia, causando indignação e preocupação. O pastor André Valadão, conhecido por sua influência no meio evangélico, não surpreendeu ao radicalizar seu posicionamento contra a comunidade LGBTQIA+. É importante enfatizar que tais afirmações não refletem o verdadeiro espírito do amor divino e a mensagem que Jesus Cristo transmitiu durante sua passagem na Terra.
É importante ressaltar que a mensagem de Jesus Cristo e a postura adotada pelo pastor André Valadão são antagônicas e se distanciam completamente uma da outra. Enquanto Jesus pregava o amor, a compaixão e a inclusão, Valadão propagava o discurso de ódio e intolerância. A mensagem de Cristo inspira as pessoas a amarem o próximo, a acolherem os excluídos e promoverem a reconciliação, enquanto o discurso de Valadão alimenta a divisão, o preconceito e a violência. É essencial discernir entre a verdadeira mensagem de Jesus Cristo e a postura de líderes religiosos que distorcem esses ensinamentos para atender a interesses pessoais ou ideológicos.
É triste constatar que os discursos de ódio e intolerância ainda se encontram eco em alguns setores da sociedade, incluindo o meio religioso. Pastores e líderes religiosos têm a responsabilidade de guiar seus seguidores com base na verdade e na mensagem de amor e compaixão que Jesus nos ensinou. Aqueles que se utilizam da religião para incitar o ódio e são reconhecidos como falsos pastores, mais preocupados com o enriquecimento pessoal e a promoção de suas próprias ideologias do que com a verdade e com a essência do cristianismo.
Deus é Amor, não de Ódio: Uma das premissas fundamentais da fé cristã é o amor de Deus. Essa é uma mensagem que ressoa através das escrituras sagradas e é repetida incansavelmente pelos cristãos em todo o mundo. Afirmar que Deus odeia o orgulho, como defendido pelo pastor Valadão, é ignorar a essência do amor divino e deturpar a mensagem central do cristianismo.
A vida e os ensinamentos de Jesus Cristo são a personificação do amor e compaixão. Ele acolheu os excluídos, humilhados e discriminados, mostrando que a mensagem de Deus é uma mensagem de inclusão e aceitação. Jesus nunca pregou o ódio, mas sempre enfatizou a importância do perdão, do arrependimento e do amor ao próximo. Sua missão na Terra era trazer esperança, transformação e reconciliação, não propagar o preconceito, a intolerância e o ódio.
É fundamental lembrar que o verdadeiro cristianismo se baseia na busca pelo amor, respeito, empatia e compaixão. Não se trata de seguir doutrinas destrutivas ou promover a exclusão, mas de acolher a diversidade e buscar a unidade pelo meio do amor. Pastores e líderes religiosos devem estar comprometidos com esses princípios, guiando suas comunidades a partir do exemplo de Jesus Cristo, em vez de disseminar o ódio e a intolerância.
Ismênio Bezerra
O discurso de ódio propagado pelo pastor André Valadão é uma triste manifestação de intolerância e falta de compreensão da mensagem central do cristianismo.
Deus é amor, e Jesus Cristo nos ensinou a amar e tolerar. É importante condenar veementemente qualquer discurso que promova a exclusão e a exclusão, especialmente no nome da religião.
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