Menos paixão à primeira vista... Mais amor a se perder de vista.
- Ismênio Bezerra
- 13 de jun. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 13 de mar.
Amar é mais do que dizer “eu te amo”. É sentir o amor em cada gesto, em cada olhar, em cada exercício de cuidado. — Vinícius de Moraes
Enquanto o Dia dos Namorados chega envolto em flores, promessas e declarações, surge também uma pergunta silenciosa: o que dizer daqueles que ainda não amam, ou que aprenderam a caminhar à margem do amor? Seriam pessoas incapazes de sentir, ou apenas guardiãs de emoções que preferem manter protegidas no fundo do coração? Talvez essa data, tão marcada por celebrações afetivas, seja também um convite à reflexão sobre aqueles que hesitam diante do amor — não por frieza, mas por caminhos interiores que ainda procuram compreender.

O Dia dos Namorados é, tradicionalmente, uma celebração da união entre duas pessoas. É o momento em que muitos se permitem olhar para o amor com mais atenção, tentando compreender como esse sentimento se manifesta em suas vidas. O amor, afinal, é um território vasto e delicado, repleto de nuances, dúvidas e descobertas. Quando vivido com verdade, ele é capaz de iluminar o cotidiano com uma alegria serena e profunda.
Para os indecisos, o amor pode parecer um labirinto. Pensar demais, duvidar demais ou esperar certezas absolutas pode criar muros invisíveis entre o desejo de amar e a coragem de se entregar. No entanto, o amor raramente nasce da certeza; ele floresce na disposição de caminhar junto, mesmo sem saber exatamente para onde o caminho levará.
Para os que carregam medos, amar pode ser ainda mais desafiador. Há quem traga no coração lembranças de feridas antigas, histórias interrompidas ou promessas que não resistiram ao tempo. O medo de reviver essas dores pode transformar o amor em algo distante, quase proibido. Ainda assim, o amor verdadeiro costuma revelar outra face da vida: ele não apenas emociona, mas também cura, fortalece e ensina. Quando alguém encontra coragem para atravessar os próprios receios, descobre que amar também é um caminho de crescimento.
Para aqueles que se permitem viver intensamente, porém, o amor pode surgir como um vendaval de emoções. Ele invade os dias com entusiasmo, muda o ritmo das horas e transforma o cotidiano em um território de descobertas. Nesse estado de entrega, a presença da pessoa amada parece encurtar o tempo e ampliar os sentidos da vida.

A paixão à primeira vista, tantas vezes cantada pela poesia e pela música, pode realmente acontecer. O olhar que se encontra, o coração que acelera, o instante que parece suspenso no ar — tudo isso tem algo de mágico. No entanto, a paixão inicial, por mais encantadora que seja, não é necessariamente o que sustenta um relacionamento ao longo do tempo.
O amor verdadeiro cresce devagar. Ele se constrói na convivência, na amizade que amadurece, na confiança que se fortalece dia após dia. Mais do que um sentimento repentino, o amor profundo nasce da descoberta contínua do outro — de suas virtudes, de suas fragilidades e da beleza que existe em sua humanidade.
Amar “a se perder de vista”, como tantas vezes se diz na linguagem da poesia, é amar sem medir o afeto em limites estreitos. É olhar para além das aparências e reconhecer, no outro, alguém inteiro, com imperfeições e grandezas. É respeitar a essência da pessoa amada e acolher sua verdade sem tentar moldá-la.
Esse amor também aprende a caminhar com o tempo. Pessoas mudam, amadurecem, atravessam fases distintas da vida. Um relacionamento que deseja permanecer vivo precisa abrir espaço para essas transformações, permitindo que cada um cresça individualmente sem que o vínculo se perca.
O amor que permanece é construído com paciência, compreensão e respeito. Ele não se sustenta apenas na emoção do começo, mas na escolha renovada de permanecer. É um amor que se fortalece nas dificuldades, que encontra sentido nos gestos simples e que aprende, ao longo dos anos, que amar também é cuidar.
Embora a paixão repentina tenha seu encanto, é o amor que amadurece com o tempo que revela sua verdadeira beleza. Amar, nesse sentido, torna-se uma jornada contínua de descobertas, onde cada dia traz novas oportunidades de reconhecer, no outro, motivos para continuar caminhando lado a lado.
Assim, amar a se perder de vista não significa perder-se no outro, mas encontrar-se junto dele. É a experiência rara em que duas vidas se entrelaçam sem deixar de ser livres — duas histórias que, ao se encontrarem, descobrem que caminhar juntas torna o mundo um pouco mais inteiro, um pouco mais bonito e, sobretudo, mais humano.
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Ismênio Bezerra
Bibliografia
ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 2001.
BRAGA, Rubem. 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro: Record, 2013.
CORALINA, Cora. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. São Paulo: Global, 2014.
LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
MELLO, Thiago de. Faz escuro mas eu canto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.
MORAES, Vinícius de. Antologia poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
QUINTANA, Mario. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
ALVES, Rubem. Ostra feliz não faz pérola. São Paulo: Planeta, 2008.
PRADO, Adélia. Bagagem. Rio de Janeiro: Record, 2014.
MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
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