Lucro a partir do ódio
- Ismênio Bezerra
- 10 de jul. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: há 7 dias

Nos últimos anos, observa-se um crescimento consistente do uso das redes sociais como vetores de disseminação de discursos de ódio. Esse fenômeno, no entanto, não pode ser compreendido apenas como expressão espontânea de intolerância. Em muitos casos, trata-se de uma dinâmica estruturada, na qual diferentes atores — BigTechs, líderes religiosos, influenciadores e políticos — encontram incentivos econômicos, simbólicos e de poder para explorar e amplificar a polarização.
No campo das plataformas digitais, as chamadas BigTechs ocupam posição central. Seus modelos de negócio, baseados na maximização do engajamento, favorecem conteúdos que despertam reações intensas — indignação, medo ou revolta. Algoritmos de recomendação tendem a priorizar conteúdos controversos e sensacionalistas, ampliando sua circulação. Ainda que não produzam diretamente o discurso de ódio, essas empresas se beneficiam de sua viralização, convertendo atenção em receita publicitária e tempo de permanência. Trata-se, portanto, de uma lógica estrutural que transforma conflito em ativo econômico.
Paralelamente, determinados líderes religiosos — sobretudo aqueles alinhados a posturas mais extremadas — utilizam as redes como instrumentos de mobilização. Ao construir narrativas baseadas na oposição entre “nós” e “eles”, esses atores fortalecem vínculos identitários e ampliam sua influência. O discurso de ódio, nesse contexto, cumpre função estratégica: engajar emocionalmente, consolidar autoridade e, não raramente, gerar retorno financeiro por meio de doações e expansão de audiência. Não se trata de uma característica inerente à religião, mas de sua instrumentalização por lideranças específicas.
Os chamados “influenciadores” também desempenham papel relevante nesse ecossistema. Em um ambiente orientado por métricas de visibilidade, a adoção de posicionamentos polêmicos e agressivos frequentemente se converte em vantagem competitiva. O ódio, transformado em espetáculo, torna-se ferramenta de crescimento de audiência e atração de patrocinadores. A lógica da monetização do engajamento acaba por incentivar a produção de conteúdos cada vez mais radicais, reforçando ciclos de polarização.
No campo político, o uso estratégico do conflito e da hostilidade também se intensificou. Discursos que simplificam a realidade em termos binários — aliados versus inimigos — facilitam a mobilização de bases eleitorais e a fidelização de apoiadores. As redes sociais, nesse cenário, funcionam como amplificadores de mensagens polarizadoras, contribuindo para a desumanização do adversário e para a criação de ambientes de tensão permanente. O ganho político e financeiro, nesse caso, está diretamente associado à capacidade de manter o conflito ativo.
Entretanto, essa dinâmica não se sustenta apenas pela ação desses atores. Há também um papel ativo dos próprios usuários, que consomem, compartilham e reproduzem conteúdos. A limitação no acesso a informações de qualidade, somada à baixa alfabetização midiática, favorece a formação de “bolhas informacionais”. Nessas câmaras de eco, crenças são reforçadas e visões divergentes são excluídas, criando um ambiente propício à radicalização.
A desinformação ocupa lugar central nesse processo. Temas complexos, como o comunismo ou as discussões sobre gênero, frequentemente são reduzidos a caricaturas ou distorcidos deliberadamente. No caso do comunismo, ignora-se sua diversidade teórica e histórica, sendo frequentemente utilizado como instrumento retórico de medo. No contexto brasileiro, inclusive, não houve condições estruturais para sua implementação, o que torna sua utilização como ameaça iminente um recurso mais simbólico do que factual.
De forma semelhante, o termo “ideologia de gênero” tem sido amplamente utilizado como estratégia discursiva para deslegitimar estudos acadêmicos consolidados sobre gênero e sexualidade. Ao associar essas discussões a uma suposta agenda ideológica, promove-se desinformação e hostilidade, especialmente contra pessoas LGBTQIA+. Trata-se de um exemplo claro de como narrativas simplificadoras podem ser mobilizadas para alimentar preconceitos e ampliar divisões.
Diante desse cenário, a educação emerge como elemento central para a superação dessas dinâmicas. A promoção da alfabetização midiática, do pensamento crítico e do acesso a fontes confiáveis de informação torna-se fundamental. Bibliotecas, jornalismo responsável, produção acadêmica e espaços de debate qualificado são instrumentos essenciais para ampliar a compreensão da realidade e reduzir a vulnerabilidade à manipulação.
Além disso, a ética desempenha papel estruturante. Valores como empatia, responsabilidade e respeito à diversidade são fundamentais para orientar comportamentos no ambiente digital e fora dele. A construção de uma sociedade menos suscetível ao ódio depende, em grande medida, da capacidade de seus indivíduos de reconhecer a complexidade do mundo e de dialogar com diferenças.
Assim, a superação do discurso de ódio não se dará por soluções simplistas ou isoladas. Ela exige a articulação entre educação, informação de qualidade e compromisso ético. Apenas a partir desses pilares será possível construir um ambiente social mais equilibrado, no qual o dissenso não se converta em hostilidade e o debate público possa ocorrer em bases mais racionais, inclusivas e construtivas.
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Ismênio Bezerra
Bibliografia
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Votar é uma meta constante. Mas mudar o sistema político urgente e envelhecido é urgente. Pode se fazer algo misto, para dar mais certo. Híbrido, diria. Navegar é preciso. Sobretudo em águas inteligentes. E não de apedeuta. Mas nas águas brasileiras só vigaristas de políticos. Tudo com nosso dinheiro. Impostos. Roubar apenas uma carta? Como em E. Poe? PT? Lol. O Brasil está em perigo. Na cultura e na arte. Só feiúra. Nada da alta literatura nas escolas. No tempo e no espaço. Breguices e baranguices da religião cujo nome é PT. O PT é barango. O PT é o Kitsch político. E os ditos supostos intelectuais (ditos por seus pares) como João Cezar de Castro Rocha apoia aPedeuTa bandido. A saber: O mula. Eis aí a esquerdalha brasileir…