Lutar contra o feminicídio e não ser cristãos apenas no discurso
- Ismênio Bezerra
- 10 de mar. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 7 de mar.

O enfrentamento ao feminicídio e à violência contra as mulheres é apresentado, neste texto, como uma exigência ética incontornável para quem se diz cristão. Não se trata de uma pauta opcional, periférica ou ideológica, mas de coerência entre fé professada e prática cotidiana. Defender a vida das mulheres é defender o próprio Evangelho.
A mensagem e a trajetória de Jesus Cristo revelam uma ruptura profunda com as estruturas de opressão do seu tempo. Em uma sociedade marcada pelo patriarcado, pela exclusão feminina e pela violência simbólica e real contra as mulheres, Jesus as acolheu, escutou, valorizou e lhes devolveu dignidade. Ele dialogou com mulheres em público, permitiu que fossem discípulas, rompeu silêncios impostos e se colocou frontalmente contra práticas que as subjugavam.
Diversas passagens bíblicas evidenciam essa postura. Ao proteger a mulher acusada de adultério da condenação à morte, Jesus não apenas salvou uma vida, mas denunciou a hipocrisia de uma sociedade que punia mulheres enquanto absolvia homens. Seu gesto foi um ato de justiça, misericórdia e coragem moral. O Evangelho, portanto, não legitima a violência nem a submissão cega; ao contrário, confronta estruturas que naturalizam o abuso.
Apesar disso, o feminicídio e a violência contra as mulheres seguem como uma chaga aberta na sociedade contemporânea. Milhões de mulheres são vítimas de agressões físicas, psicológicas, morais e patrimoniais em todo o mundo. No Brasil, os números são alarmantes, com destaque negativo para estados como Ceará, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. No Distrito Federal, o crescimento dessas violências entre 2020 e 2022 foi expressivo, mesmo diante da subnotificação que ainda mascara a real dimensão do problema. Essa realidade é incompatível com qualquer discurso cristão que se pretenda autêntico.

Jesus denuncia, com clareza, a contradição entre fé e omissão. Não basta lamentar tragédias, orar depois dos crimes ou emitir notas genéricas de repúdio. A aceitação passiva, o silêncio cúmplice e a relativização da violência também matam. Ser cristão exige posicionamento, denúncia e ação concreta em defesa das vítimas.
Nesse sentido, o discurso da “submissão da mulher ao homem” é apontado como tóxico, ultrapassado e profundamente nocivo. Trata-se de uma interpretação distorcida da fé, que historicamente serviu para justificar agressões, silenciar denúncias e perpetuar o poder masculino violento. Esse tipo de narrativa não vem do Evangelho, mas de estruturas culturais que instrumentalizam a religião para manter privilégios e controlar corpos e consciências.
O combate ao feminicídio passa, necessariamente, pela revisão crítica dessas ideias. Implica educar comunidades, questionar lideranças religiosas omissas, apoiar mulheres vítimas de violência e promover uma cultura de igualdade, respeito e corresponsabilidade. A fé cristã, quando vivida com seriedade, não oprime — liberta. Não humilha — restaura. Não silencia — dá voz.
O exemplo de Cristo reforça que não se pode terceirizar essa responsabilidade. A defesa da vida das mulheres não é tarefa exclusiva do Estado, das organizações sociais ou das vítimas. É um compromisso coletivo, especialmente de quem afirma seguir os ensinamentos de Jesus. Não agir é escolher um lado. E o silêncio, diante da violência, nunca é neutro.
Por fim, o apelo é direto e contundente: é preciso abandonar o cristianismo apenas retórico, confortável e seletivo. A coerência cristã se prova na prática, na coragem de enfrentar injustiças e na disposição de romper com discursos que matam. Lutar contra o feminicídio é, acima de tudo, um ato de fidelidade ao Evangelho e um compromisso inegociável com a defesa da vida, da dignidade e da justiça.
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Ismênio Bezerra
Bibliografia
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BOFF, Leonardo. Jesus Cristo libertador: ensaio de cristologia crítica para o nosso tempo. Petrópolis: Vozes, 2012.
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GEBARA, Ivone. Romper o silêncio: uma fenomenologia feminista do mal. Petrópolis: Vozes, 2000.
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SAFFIOTI, Heleieth I. B. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2015.
SEGATO, Rita Laura. La guerra contra las mujeres. Madrid: Traficantes de Sueños, 2016.
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