Demografia, geração canguru e etarismo.
- Ismênio Bezerra
- 18 de mar. de 2023
- 6 min de leitura
Atualizado: 7 de mar.

Envelhecimento, geração canguru e etarismo: desafios demográficos e sociais do presente.
Os impactos demográficos exercem influência direta na estrutura e na dinâmica das sociedades. Mudanças no tamanho, na composição etária e nas condições de vida da população afetam profundamente áreas como economia, política, saúde, educação e cultura. Compreender esses fenômenos é essencial para o planejamento de políticas públicas e para a construção de sociedades mais equilibradas e inclusivas.
Para que uma sociedade se torne verdadeiramente justa, é fundamental reconhecer e superar preconceitos e estereótipos que limitam a forma como as pessoas enxergam umas às outras. O domínio de conceitos e a reflexão crítica ajudam a reduzir discriminações baseadas em origem social, gênero, idade, orientação sexual ou qualquer outra característica individual. Quando esses preconceitos são superados, abre-se espaço para relações mais respeitosas e solidárias, nas quais a diversidade passa a ser compreendida como um valor essencial para o bem-estar coletivo.
Entre as transformações demográficas mais importantes das últimas décadas está o envelhecimento da população. Trata-se de um fenômeno global que ocorre em grande parte dos países do mundo e está diretamente relacionado ao aumento da expectativa de vida e à redução das taxas de natalidade. O avanço da medicina, a melhoria das condições de saneamento, alimentação e educação, bem como o desenvolvimento econômico e social, contribuíram para que as pessoas vivam mais e com melhor qualidade de vida.
De acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), a população mundial com 65 anos ou mais ultrapassa 700 milhões de pessoas, o que representa aproximadamente 9% da população global. As projeções indicam que, até 2050, esse número poderá alcançar cerca de 1,5 bilhão de pessoas, correspondendo a mais de 16% da população mundial. Essa transformação demográfica exige que governos e sociedades repensem suas estruturas sociais, econômicas e institucionais.
Nos países mais desenvolvidos, como Japão, Itália, Alemanha e Espanha, o envelhecimento populacional já é bastante avançado. No Japão, por exemplo, a população idosa ultrapassa 28% da população total e pode alcançar cerca de 38% até meados do século. Essa realidade impõe desafios significativos para o sistema previdenciário, para os serviços de saúde e para a organização do mercado de trabalho, exigindo novas estratégias de sustentabilidade social.
No Brasil, o envelhecimento populacional também se torna cada vez mais evidente. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o país já possui mais de 30 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o que representa aproximadamente 14% da população. As projeções apontam que, até 2060, esse número poderá ultrapassar 70 milhões de pessoas, representando cerca de um terço da população brasileira.
Essa mudança demográfica traz consigo uma série de desafios. Sistemas de previdência, assistência social e saúde precisam se adaptar a uma população mais longeva. Ao mesmo tempo, torna-se necessário repensar o papel social das pessoas idosas, valorizando sua experiência, conhecimento e participação ativa na sociedade. O envelhecimento populacional não deve ser visto apenas como um problema, mas também como uma oportunidade de promover relações sociais mais maduras e solidárias.
Paralelamente a essas mudanças demográficas, observa-se também o crescimento de fenômenos sociais associados às transformações econômicas e culturais contemporâneas. Um deles é a chamada Geração Canguru, expressão utilizada para designar jovens adultos que permanecem vivendo com seus pais por períodos mais longos da vida.
O termo surgiu nos anos 1990, inspirado no marsupial australiano que carrega seus filhotes na bolsa por um longo tempo. Na prática, a expressão passou a simbolizar uma realidade em que jovens adultos permanecem no ambiente familiar por razões econômicas, sociais ou culturais.
Entre os fatores que explicam esse fenômeno estão a dificuldade de inserção no mercado de trabalho, a precarização de empregos, o aumento do custo de vida e a escassez de moradias acessíveis. Muitos jovens optam por permanecer na casa dos pais como estratégia de estabilidade financeira, economizando recursos enquanto buscam melhores oportunidades profissionais.
Embora frequentemente associada a estereótipos de imaturidade ou dependência, essa realidade precisa ser analisada com maior sensibilidade social. Para muitos jovens, viver com os pais representa uma forma de planejamento financeiro e de fortalecimento emocional diante de um cenário econômico instável. Ao mesmo tempo, essa convivência pode favorecer laços familiares mais próximos e solidários.
Ainda assim, é importante que jovens adultos desenvolvam gradualmente autonomia financeira e responsabilidade pessoal. Da mesma forma, os pais podem desempenhar um papel importante ao incentivar o desenvolvimento de habilidades que preparem seus filhos para a vida independente.
Outro tema central no debate sobre envelhecimento e dinâmica social é o etarismo. O termo refere-se à discriminação baseada na idade, manifestando-se por meio de estereótipos, preconceitos ou limitações impostas a indivíduos ou grupos em razão da sua faixa etária.
Embora o etarismo possa afetar pessoas de diferentes idades, ele costuma atingir principalmente a população idosa. Comentários depreciativos, exclusão social e discriminação no mercado de trabalho são algumas das formas mais comuns dessa prática. Tais atitudes podem afetar profundamente a autoestima e a saúde mental das pessoas, além de limitar suas oportunidades profissionais e sociais.
Um exemplo frequente de etarismo é a crença de que pessoas mais velhas são menos capazes de aprender ou de se adaptar a novas tecnologias. Essa visão simplista ignora a diversidade de experiências e capacidades existentes entre indivíduos de diferentes idades.
No Brasil, o etarismo também se manifesta no mercado de trabalho, onde muitas empresas preferem contratar profissionais mais jovens, associando juventude a produtividade e inovação. Ao mesmo tempo, trabalhadores mais experientes enfrentam dificuldades para permanecer ou retornar ao mercado de trabalho, mesmo quando possuem qualificações e experiência relevantes.
Debates recentes também surgiram em torno da aposentadoria compulsória em determinadas carreiras públicas, como no caso da magistratura. A obrigatoriedade de aposentadoria aos 75 anos tem gerado discussões sobre equilíbrio entre renovação institucional e valorização da experiência acumulada ao longo da carreira.
É importante destacar que o etarismo não se limita à discriminação contra idosos. Jovens também podem ser alvo de preconceitos baseados na idade, sendo frequentemente considerados imaturos ou incapazes de assumir responsabilidades. Dessa forma, o etarismo afeta diferentes gerações e pode comprometer o diálogo intergeracional.
Outro aspecto relevante diz respeito à condição econômica da população idosa. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) indicam que muitos idosos dependem de aposentadorias e pensões como principal fonte de renda. Embora alguns tenham estabilidade financeira, uma parcela significativa vive em situação de vulnerabilidade social.
Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) apontam que a desigualdade de renda entre idosos varia de acordo com a região do país. Em áreas mais pobres, especialmente no Nordeste, uma parcela significativa da população idosa vive com rendimentos inferiores a um salário mínimo.
Combater o etarismo exige ações em diversas frentes. A educação desempenha papel fundamental ao promover o respeito à diversidade etária desde os primeiros anos de formação. Escolas e universidades podem contribuir para ampliar a compreensão sobre envelhecimento, longevidade e relações intergeracionais.
Além disso, profissionais que atuam diretamente com a população idosa, como médicos, enfermeiros, assistentes sociais e cuidadores, precisam estar preparados para reconhecer e enfrentar práticas discriminatórias baseadas na idade.
Por fim, políticas públicas voltadas à inclusão social e à valorização da população idosa são essenciais. À medida que a sociedade envelhece, torna-se cada vez mais necessário desenvolver estratégias que garantam autonomia, participação social e qualidade de vida para pessoas de todas as idades.
Valorizar a diversidade etária significa reconhecer que cada fase da vida possui experiências, conhecimentos e contribuições importantes para a sociedade. Construir uma cultura de respeito mútuo entre gerações é um passo essencial para uma sociedade mais justa, equilibrada e solidária.
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Ismênio Bezerra
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