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Crônica — O que não vivemos também nos atravessa


Há um tipo de ausência que não faz barulho.


Não é a perda de alguém.

Não é o fim de uma história.

Não é o fracasso que nos expõe.


É mais sutil.

Mais íntima.

Mais difícil de nomear.


É a ausência daquilo que poderíamos ter sido… e não fomos.


Existe um momento — e ele chega para todos — em que o tempo deixa de ser uma promessa e passa a ser uma contagem.


Não é quando o corpo cansa.

Nem quando os cabelos embranquecem.

É quando a memória começa a pesar mais do que os planos.


E, nesse instante, algo se revela com uma clareza quase cruel:

a vida não foi pequena… nós é que a vivemos pela metade.


Há histórias que nunca começaram.


Amores que ficaram na intenção.

Palavras que morreram na garganta.

Caminhos que foram abandonados antes mesmo do primeiro passo.


Não por falta de vontade —mas por excesso de medo.


Medo de errar.

Medo de não dar certo.

Medo de parecer inadequado.

Medo, sobretudo, de ser visto.


E, na tentativa de evitar o julgamento, muitos acabam evitando a própria vida.


O mais trágico é que o tribunal nunca foi real.


Aquelas pessoas que pareciam tão decisivas…

tão determinantes…

tão presentes…

estavam, na verdade, ocupadas demais vivendo — ou desperdiçando — as próprias vidas para julgar a sua.


E mesmo quando julgaram…

passaram.

Porque tudo passa.


Há uma ironia quase dolorosa nisso tudo:

adiamos a vida esperando o momento certo,como se o tempo fosse infinito e como se a coragem fosse algo que surgisse, um dia, espontaneamente.


Mas a verdade é outra — e ela não costuma ser gentil:

a coragem não chega.

Ela é escolhida.


E, quase sempre, tarde demais.


Nos últimos instantes — aqueles em que não há mais o que provar, nem para quem — as máscaras caem.


E o que resta não são os erros cometidos.

São os riscos evitados.

Não é o que deu errado que dói.

É o que nunca teve a chance de dar certo.


Há quem parta muito cedo, sem tempo sequer de escolher.

Mas há também quem viva longamente…

e, ainda assim, nunca tenha realmente vivido.


Porque existir não é o mesmo que viver.

E sobreviver não é o mesmo que sentir.


Talvez a maior liberdade da vida esteja escondida numa verdade que poucos têm coragem de encarar: seremos esquecidos.


Não amanhã.

Mas inevitavelmente.

E isso, longe de ser triste, é libertador.


Porque se ninguém carregará para sempre o peso das suas escolhas…

por que você continua carregando o peso da opinião dos outros?


Viver intensamente não é viver sem responsabilidade.


É viver sem prisão.

É ter a dignidade de escolher o próprio caminho — mesmo que ele não seja compreendido.

É aceitar que errar faz parte do movimento de quem tenta, e que permanecer imóvel é o único erro que não se corrige.


No fim — e ele sempre chega —

não será a vida que você levou que vai te assombrar.


Será a vida que você deixou de viver.

E essa…

essa não encontra descanso fácil dentro de ninguém.


Se este texto tocou você de alguma forma, deixe um comentário se desejar e, sobretudo, compartilhe — o mundo precisa de mais leveza, mais leitura, mais gente disposta a refletir e mais horizontes capazes de iluminar novos caminhos.


Ismênio Bezerra

Bibliografia


BROWN, Brené. A coragem de ser imperfeito. Rio de Janeiro: Sextante, 2016.


DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 2001.


FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes, 2008.


FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.


KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2009.


MAY, Rollo. A coragem de criar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.


NERUDA, Pablo. Cem sonetos de amor. Porto Alegre: L&PM, 2011.


QUINTANA, Mario. Poesias completas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005.


SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Petrópolis: Vozes, 2014.


WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983.



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