Cancelamento: quando a humanidade vira alvo
- Ismênio Bezerra
- há 6 dias
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O “cancelamento” virou uma espécie de tribunal moderno. Já o “cancelamento de CPF”, expressão usada de forma brutal e banalizada nas redes, virou metáfora mórbida para eliminar alguém não apenas do debate, mas da própria existência. O curioso — e profundamente trágico — é perceber que, muito antes da internet, muita gente já havia sido “cancelada” exatamente por defender diálogo, paz, direitos humanos e dignidade. Em muitos casos, o cancelamento simbólico terminou no cancelamento real da vida.
Mahatma Gandhi foi ridicularizado, odiado e tratado como traidor por setores extremistas antes de ser assassinado. Martin Luther King Jr. foi chamado de agitador, comunista e inimigo interno antes de ser morto.
Ambos defendiam a não violência.
Ambos pregavam reconciliação.
Ambos falavam sobre humanidade.
Ambos foram eliminados por pessoas que acreditavam defender uma causa maior.
No Brasil, o roteiro não foi diferente. Chico Mendes foi cancelado muito antes das redes sociais inventarem esse nome. Defender a floresta, os povos tradicionais e denunciar a destruição ambiental bastou para que fosse tratado como inimigo. Seu “crime” foi enfrentar interesses econômicos e denunciar a devastação da Amazônia. O resultado foi o cancelamento definitivo da sua existência.
O mesmo aconteceu com Dorothy Stang. Uma freira idosa, missionária, defensora dos pobres e da floresta amazônica. Mas, para quem lucra com violência, grilagem e exploração, até uma missionária vira ameaça. Sua defesa da dignidade humana e da preservação ambiental foi respondida com tiros.
Também foram “cancelados” servidores públicos que ousaram combater o trabalho escravo contemporâneo, na conhecida Chacina de Unaí. Auditores fiscais e profissionais ligados ao Ministério do Trabalho passaram a viver sob ameaça permanente por fiscalizarem fazendas, denunciando exploração humana, servidão por dívida e condições degradantes. Alguns foram assassinados exatamente porque decidiram cumprir a lei e afirmar que seres humanos não podem ser tratados como mercadoria.
Mas nem sempre o cancelamento físico consegue concluir sua obra. Às vezes, ele fracassa na tentativa de matar o corpo e passa a tentar destruir simbolicamente a história, a credibilidade e a luta da vítima.
Maria da Penha conhece profundamente essa violência. Tentaram cancelar sua vida primeiro com um tiro enquanto dormia. Depois, tentaram eletrocutá-la no banheiro. Sobreviveu, tornou-se símbolo mundial de combate à violência doméstica e deu nome à principal legislação brasileira de proteção às mulheres. Ainda assim, ironicamente, continua sendo alvo de ataques simbólicos de setores machistas e de grupos influenciados pela cultura “redpill”, que tentam desacreditá-la, minimizar sua luta ou atacar justamente aquilo que ela representa: o enfrentamento ao feminicídio, à misoginia e à violência contra a mulher.
E talvez isso revele uma das faces mais perversas do problema: pessoas que lutam para impedir a violência frequentemente passam a ser tratadas como inimigas exatamente por aqueles que naturalizam ou relativizam essa mesma violência.
Nem líderes religiosos comprometidos com a paz escapam desse mecanismo. Papa Leão XIV, ao defender o fim das guerras, condenar violações de direitos humanos e denunciar massacres de populações civis — seja em Gaza ou em qualquer parte do mundo — também passou a sofrer tentativas de cancelamento simbólico. E isso ocorre porque líderes que pregam paz, diálogo e limites éticos para o poder econômico e militar frequentemente se tornam obstáculos para projetos políticos baseados em força, polarização e domínio narrativo.
Nesse cenário, figuras políticas extremamente poderosas, como Donald Trump, acabam influenciando direta ou indiretamente uma cultura de destruição de reputações, onde discordar passou a ser tratado como traição. O peso político, econômico e bélico de uma potência mundial transforma narrativas em armas de pressão global. E assim, até líderes religiosos que defendem a paz e a dignidade humana passam a ser alvos de campanhas de descredibilização, insultos e ataques sistemáticos.
A história insiste em repetir um padrão perturbador: pessoas que enfrentam injustiças quase sempre incomodam mais do que as próprias injustiças. Quem denuncia racismo, exploração humana, trabalho análogo à escravidão, abuso sexual, violência política ou violações de direitos humanos frequentemente passa a ser tratado como o verdadeiro problema. Não porque esteja errado, mas porque ameaça estruturas de poder, privilégios e narrativas confortáveis.
Talvez a humanidade goste mais de discursos sobre paz do que de pessoas realmente comprometidas com ela. Porque pessoas comprometidas com a paz quase sempre exigem mudanças. E mudanças incomodam. Elas mexem em hierarquias, desafiam interesses, desmontam hipocrisias e expõem crueldades que muita gente prefere fingir que não existem.
O mais irônico é que até Jesus Cristo poderia ser facilmente “cancelado” nos tempos atuais. Aliás, foi. Não pelas mãos de criminosos comuns, mas por extremistas religiosos, autoridades políticas e setores que se sentiam ameaçados por sua mensagem. Jesus confrontou hipocrisias, denunciou mercadores da fé, questionou estruturas religiosas endurecidas e defendeu marginalizados, pobres e excluídos. Foi perseguido justamente por falar de amor, compaixão, justiça e dignidade humana. Sua execução pública talvez tenha sido um dos maiores exemplos históricos do que hoje chamariam, cinicamente, de “cancelamento de CPF”.
E talvez seja justamente aí que mora a grande contradição humana: sociedades frequentemente transformam em ameaça aqueles que mais tentam humanizá-las.
O problema raramente nasce apenas da “maldade pura”, como gostam de simplificar os discursos maniqueístas. Muitas vezes nasce da ignorância endurecida, da arrogância intelectual, da incapacidade de ouvir o outro, da obsessão por vencer debates, dominar narrativas e manter o status quo.
Há pessoas que já não querem convencer.
Querem apenas esmagar.
Não querem dialogar.
Querem silenciar.
Não querem coexistir.
Querem submissão.
E quando uma sociedade transforma qualquer divergência em guerra moral, toda humanidade começa a se deteriorar. Aos poucos, quem viola direitos perde também a própria humanidade. E pior: passa a arrancar a humanidade dos outros. O outro deixa de ser pessoa e vira alvo, inimigo, perfil, CPF, número, rótulo, hashtag.
A pergunta talvez seja mais desconfortável do que parece: por que pessoas que combatem chagas sociais são tão combatidas? Talvez porque toda denúncia séria obrigue alguém a olhar para aquilo que ajudou a normalizar. E quase sempre é mais fácil destruir o mensageiro do que encarar a verdade.
No fundo, o “cancelamento” contemporâneo apenas modernizou algo antigo: a dificuldade humana de conviver com quem confronta injustiças sem reproduzir ódio. A diferença é que hoje isso acontece em velocidade digital, com aplausos, algoritmos e plateias sedentas por linchamento moral instantâneo. O uso do termo "CPF cancelado" banaliza a vida.
A civilização talvez não esteja em risco apenas quando alguém aperta um gatilho. Ela começa a adoecer quando perde a capacidade de enxergar humanidade até mesmo em quem pensa diferente. Porque toda vez que uma sociedade normaliza a eliminação simbólica do outro, ela dá mais um passo para naturalizar também sua eliminação real.
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Ismênio Bezerra
Bibliografia
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