A modernidade segundo Milei: relógio para trás, jornada para cima
- Ismênio Bezerra
- há 9 horas
- 7 min de leitura

A Argentina: do topo do ranking ao “laboratório de lições não demandas”
Era uma vez um país que, no início do século XX, estava entre os dez mais ricos do mundo em renda per capita, rivalizando com economias como Alemanha, França e Itália — um verdadeiro “Quênia com tradição gaúcha e tango no fim de semana”. Essa era a Argentina antes da Grande Guerra.
Hoje, porém, a narrativa do vizinho é um curioso caso de história econômica reinventada às avessas: na Argentina, certas políticas que deveriam ser poções de vigor parecem ter sido aplicadas como tônico do revés.
Primeiro ato: quando o dólar virou chefe de departamento econômico
Nos anos 1990, o governo argentino resolveu acabar com aquela maluquice de moeda instável chamada peso — e o colocou para trabalhar em regime de paridade fixa 1:1 com o dólar americano. Ou seja, o peso “valia tanto quanto” dólar, mas não tinha as engrenagens necessárias para merecer essa confiança.
Medidas desse tipo costumam fazer sentido em teoria: “vamos armar a confiança, controlar a inflação, atrair investimento”. O resultado prático?
Empresas argentinas ficaram incapazes de competir com importados, justamente porque seus salários e custos ficaram atrelados a uma moeda “forte”.
O país acabou se tornando uma economia ainda mais dolarizada, com cidadãos correndo para dólares cada vez que qualquer sinal de instabilidade aparecia — o que saiu pela culatra no fim.
A saga da desindustrialização
Enquanto a Argentina tentava “modernizar” com paridade cambial fixa e abertura econômica irrestrita, sua base industrial começou a perder músculos. Nos anos posteriores à ditadura de 1976, políticas de abertura, privatizações e desregulamentações foram implementadas — e o setor manufatureiro, que havia impulsionado grande parte do desenvolvimento do país, começou lentamente a encolher em participação relativa ao PIB.
O processo não foi apenas de adaptação à competição global — foi um recuo estrutural do setor que deveria gerar valor agregado. Enquanto outros países latino-americanos conseguiram manter ou adaptar suas capacidades industriais, na Argentina o processo foi acompanhado de volatilidade macroeconômica, inflação crônica e falta de estratégia de longo prazo.
E o calote? Foi passeio
A história financeira argentina tem sido, com pesar dos mercados, um clássico de retornos agendados: desde o século XIX — sim, XIX — a Argentina deu calote em sua dívida pelo menos NOVE vezes. O mais famoso deles ocorreu entre 1998 e 2002, quando a economia encolheu fortemente, o desemprego disparou e o país simplesmente declarou moratória de grande parte de seus pagamentos externos — o maior calote da história até então.
Esse tipo de episódio dá ao país um curioso troféu de “inadimplência com estilo” que mercados internacionais guardam na prateleira de “não recomendado”.
Privatizações e promessas
Durante a mesma década de 1990, a Argentina promoveu privatizações em grande escala. O discurso era que “vender o patrimônio público traria eficiência e modernização”. Na prática:
Muitas privatizações atraíram capital estrangeiro de caráter essencialmente especulativo (sede por lucro rápido, não por desenvolvimento estrutural).
A regulação pós-venda era fraca — o que significou que muitos setores que deviam ganhar competição ganharam oligopólios privados com pouca pressão para inovar.
O saldo, de novo, foi empilhar vendas de patrimônio com pouco crescimento real em industriais competitivas.
Dolarização informal, inflação formal
O case argentino tem um elemento curioso: a população e as empresas preferem dolarizar contratos e reservas mesmo sem abrupta mudança formal de moeda. Isso mostra a perda de confiança na política monetária e fiscal do país — um sintoma grave de que as decisões de longo prazo são mais voláteis que um espetáculo de tango.
Essa dolarização informal é um sintoma de fragilidade macroeconômica — outro componente da “fórmula de desastre”.
Competitividade? A Argentina da ópera
Se competitividade fosse medida por um ranking de estabilidade de moeda, confiança internacional e capacidade industrial sustentável, seria complicado colocar a Argentina numa posição invejável.
O declínio relativo começou lá atrás, entre as décadas de 1930 e 1960, quando o país passou de um dos líderes per capita para uma economia com crescimento lento e fraco desempenho relativo a pares como Brasil e México. Desde então, crises repetidas e políticas erráticas impediram a construção de um ambiente competitivo e previsível para investimento e produção.

O presente
Dizem que a história não volta. Mas a Argentina de Javier Milei parece ter encontrado um atalho: não é preciso máquina do tempo quando se tem um Congresso disposto a chamar de “modernização” aquilo que lembra, com maquiagem nova, um velho retorno ao trabalho exausto.
Na madrugada de 12 de fevereiro de 2026, o Senado argentino aprovou a reforma trabalhista de Milei por 42 a 30, depois de mais de 13 horas de debate, empurrando o texto para a Câmara. No pacote: facilitação de demissões, mudanças que reduzem custos de indenização e, como símbolo perfeito desse “futuro”, a possibilidade de estender a jornada padrão de 8 para 12 horas, além de limitações ao direito de greve e outras flexibilizações — tudo sob protestos e repressão do lado de fora.
A ironia ganha força quando se olha para o Brasil, que inicia 2026 com outro debate na mesa: reduzir jornada e discutir o fim da escala 6x1, com proposta de ampliar o descanso semanal e baixar o teto semanal de horas trabalhadas — e isso já está no radar do Congresso e de instituições de pesquisa.
O “conceito” equivocado: 12 horas não é eficiência, é cansaço organizado
A promessa é sempre a mesma: “flexibilizar para produzir mais”. Só que produtividade não é sinônimo de permanência no posto. Em condições reais, jornadas excessivas tendem a reduzir a produtividade por hora por causa da fadiga, além de elevar erros, adoecimento e rotatividade — o que, para empresas e para o país, vira custo escondido. A própria OIT chama atenção para queda de produtividade associada a horas excessivas, e a OMS/OIT relaciona longas jornadas (como 55+ horas semanais) a aumento relevante de riscos graves de saúde.
Ou seja: vender 12 horas como “modernidade” é como vender carro sem freio como “inovação de velocidade”. Anda mais… até o primeiro muro.
A “Idade Média” com Wi-Fi: direitos menores, cansaço maior
A reforma avança justamente na direção que sindicatos e opositores denunciam: redução de proteções históricas, enfraquecimento de instrumentos coletivos e mais poder contratual do lado que já chega mais forte na mesa. E, para completar o retrato, o texto aprovado inclui elementos que favorecem o capital na prática, como permitir salários em moeda estrangeira e reduzir custos de desligamento — medidas apresentadas como pró-investimento.
Na vitrine, chamam de “liberdade contratual”. No chão de fábrica e no balcão, muitas vezes vira: “assine, porque há fila”.
Incentivos para cima, aperto para baixo
Enquanto o discurso aperta o trabalhador em nome da “competitividade”, a Argentina também discute/implementa regimes para atrair grande capital com benefícios e garantias: um exemplo é o regime de promoção de investimentos que prevê reduções tributárias e facilidades para fluxos de capital, desenhado para grandes projetos e investidores. É o tipo de arquitetura que costuma agradar a burguesia local bem conectada — e, sobretudo, o capital internacional que busca previsibilidade, remessa e proteção. Fica a cena: para o trabalho, “flexibilização”; para o dinheiro grande, “incentivo”.
O quadro social: choque primeiro, alívio depois — mas a conta foi alta.
No começo do governo Milei, a pobreza saltou para 52,9% (quase 25 milhões de pessoas) no primeiro semestre de 2024, segundo dados oficiais reportados pela imprensa, e a indigência (miséria) subiu fortemente — com relatos de que o número de destituídos dobrou naquele período.
Depois, com a desaceleração da inflação, houve queda relevante da pobreza em medições posteriores (com análises apontando recuo para a casa de ~38% em leitura seguinte), o que mostra um cenário volátil, ainda socialmente duro e politicamente explosivo.
E o Brasil, do outro lado do espelho
Enquanto a Argentina vota 12 horas como “padrão possível”, o Brasil discute reduzir. E faz isso num contexto em que o mercado de trabalho terminou 2025 com desemprego de 5,6% no ano e 5,1% no trimestre encerrado em dezembro, o menor nível da série — o que muita gente chama, informalmente, de “pleno emprego”.
No fim, a comparação é cruel, mas didática: um país debate descanso e qualidade de vida; o outro tenta convencer que exaustão é virtude econômica. Isso não significa que no Brasil não existam políticos semelhantes ou até mais perigosos que Milei para as massas e os trabalhadores.
Conclusão sardônica
Se a história econômica argentina fosse um roteiro de cinema, seria um daqueles dramas com reviravoltas repetidas: prodígio do século XX, golpe militar aqui, paridade cambial acolá, neoliberalismo em promoção, privatizações de liquidação, dólar informal na praça, inflação crônica nos letreiros, e defaults recorrentes no currículo.
Não é que a Argentina tenha insuficiente potencial econômico — longe disso. É que, ao longo de décadas, foi acumulando uma coleção de políticas que, cada uma isoladamente, prometia “caminhos para o futuro”, mas que juntas pareceram formar um labirinto sem saída de competitividade sustentável.
O vizinho continua, numa dança complexa entre reformas, credores, inflação e debates políticos. E aqueles que, pelo mundo, conferem seu histórico, não conseguem evitar o gesto irônico: um país que poderia estar entre os campeões do desenvolvimento escolheu, por várias vezes, o atalho da montanha-russa econômica.
Ismênio Bezerra
Não chore por mim, Argentina, jamais te deixei de fato
Nem mesmo quando, andei perdida
Então, não deixe a minha vida
BIBLIOGRAFIA
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