Quando a fé vira palco e instrumento de poder, Jesus desaparece
- Ismênio Bezerra
- há 4 dias
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Há uma contradição cada vez mais visível — e dolorosa — entre parte da religiosidade contemporânea e o Cristo que ela diz seguir. Em muitos ambientes, a fé deixou de ser caminho de transformação interior para se tornar espaço de distinção, vitrine moral e, não raramente, instrumento de poder.
O que deveria ser serviço virou status.
O que deveria ser humildade virou performance.
O que deveria ser comunhão virou hierarquia.
E, nesse processo, a simplicidade de Jesus foi sendo substituída por uma cultura de autoridade, visibilidade e reconhecimento.
O problema não está na existência de liderança dentro da igreja. Toda comunidade precisa de organização e direção. O problema começa quando a liderança deixa de ser serviço e passa a ser trono. Quando púlpitos viram palcos. Quando títulos viram símbolos de superioridade espiritual. Quando estar “mais perto de Deus” passa a significar estar acima dos outros.
Jesus caminhou exatamente na direção oposta.
Ele afirmou que não veio para ser servido, mas para servir.
Ele lavou os pés dos discípulos — um gesto radical, simbólico e profundamente desconcertante.
Ele desmontou qualquer ideia de autoridade baseada em privilégio ou prestígio.
No episódio do lava-pés, em João 13, não há encenação. Há ruptura. O Mestre se ajoelha. O Senhor assume a posição de servo. E, ao final, deixa claro: quem quiser segui-lo deve fazer o mesmo.
Essa é a régua do Evangelho.
Mas essa régua é frequentemente ignorada.
Jesus também denunciou, com firmeza, os religiosos de sua época que buscavam reconhecimento público, lugares de honra e títulos que os distinguissem dos demais. Ele não criticava a fé — criticava a vaidade travestida de fé. Criticava quem usava Deus para se exaltar diante dos homens.
E essa crítica continua atual.
Hoje, em muitos contextos, há quem fale de humildade, mas exija reverência. Quem pregue renúncia, mas viva de autopromoção. Quem diga representar Jesus, mas aja como dono da consciência dos outros. A cultura da celebridade religiosa transforma líderes espirituais em figuras intocáveis, confundindo visibilidade com autoridade e influência com verdade.
Mas a contradição se torna ainda mais grave quando essa distorção espiritual se mistura com o poder político.
Cada vez menos, em certos espaços, se convida as pessoas a conhecer e seguir Jesus. Em vez disso, constrói-se uma lógica em que a fé passa a servir como mecanismo de alinhamento ideológico. Não se trata mais apenas de conversão espiritual, mas de adesão a projetos de poder, a líderes e a narrativas que pouco têm a ver com o Cristo.
Jesus nunca exigiu fidelidade política.
Nunca vinculou fé a projeto de governo.
Nunca condicionou salvação a defesa de líderes humanos.
Pelo contrário: ao ser confrontado sobre poder, afirmou que o seu Reino não era deste mundo.
Ainda assim, vemos hoje discursos religiosos sendo utilizados para legitimar figuras públicas que, muitas vezes, expressam valores incompatíveis com o próprio Evangelho — ainda que não tirem o nome de Deus e de Jesus da boca.
Essa instrumentalização da fé costuma vir acompanhada de um maniqueísmo simplificador: o mundo dividido entre “os de Deus” e “os inimigos”. Esse tipo de narrativa não aprofunda a fé — ela empobrece o pensamento. Ela bloqueia o discernimento. Ela prepara terreno para manipulação.
E os sinais disso são claros:
Há ataques à educação, como se o conhecimento fosse ameaça.
Há desvalorização de professores, que são formadores de consciência e deveriam ser tratados com valorização e respeito.
Há rejeição da ciência, inclusive em temas fundamentais como saúde pública.
Há a crença de que fé, isoladamente, substitui responsabilidade, conhecimento e cuidado coletivo.
Nada disso encontra respaldo em Jesus.
O Cristo não combateu o saber. Combateu a hipocrisia.
Não incentivou ignorância. Incentivou discernimento.
Quando a fé passa a ser usada para afastar as pessoas da realidade, ela deixa de ser fé e passa a ser instrumento de controle.
E, nesse ambiente, cresce algo ainda mais preocupante: um processo de condicionamento psicológico coletivo.
Questionar vira pecado.
Discordar vira rebeldia.
Pensar vira ameaça.
A consciência individual é substituída por obediência cega. E isso não é espiritualidade — é dependência.
Esse cenário também abre espaço para outra distorção grave: a mercantilização da fé.
Cria-se a ideia de que contribuições financeiras são caminho para bênçãos.
Sugere-se que prosperidade material é prova de aprovação divina.
Insinua-se que milagres podem ser “ativados” por ofertas.
Constrói-se uma estética de ostentação como evidência de fé bem-sucedida.
Mas isso contradiz diretamente o Evangelho.
Jesus nunca vendeu milagres.
Nunca cobrou pela graça.
Nunca colocou preço no amor de Deus.
Pelo contrário: expulsou os que transformavam o templo em mercado.
Aproximou-se dos pobres, dos que nada tinham, dos que não podiam pagar por nada.
Transformar fé em transação é inverter completamente a lógica do cristianismo.
E quando essa fé distorcida se une ao que há de mais nocivo na política — a manipulação, o controle de massas, a construção de poder sobre consciências — o impacto ultrapassa o campo religioso.
O preço é social.
Empobrece-se o pensamento crítico.
Aumenta-se a polarização.
Fragiliza-se a educação.
Espalha-se desinformação.
E, sobretudo, perde-se a essência do Evangelho.
Porque o Evangelho não foi anunciado para dominar pessoas. Foi anunciado para libertá-las.
Jesus não formou seguidores submissos. Formou consciências livres.
Não pediu que as pessoas abandonassem a razão. Pediu que abrissem o coração — sem fechar os olhos.
No fim, a pergunta permanece inevitável:
como alguém pode dizer que segue Jesus — o Cristo que lavou pés, que rejeitou poder, que viveu na simplicidade — e, ao mesmo tempo, buscar status, aplauso, controle e superioridade?
Como pode alguém proclamar um Reino que não é deste mundo e viver disputando os tronos deste mundo?
A fé cristã, quando fiel a Jesus, não produz subdivindades.
Produz servidores.
Não forma celebridades espirituais.
Forma gente capaz de amar sem humilhar, liderar sem dominar, ensinar sem se engrandecer e corrigir sem desprezar.
Jesus desceu.
Muitos querem subir.
E talvez seja exatamente aí que a contradição se revele por inteiro: quando o Cristo servo é substituído por estruturas de poder, o que permanece pode até usar o nome de Deus… mas já não carrega mais o seu espírito.
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Ismênio Bezerra
Bibliografia
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