Deus segundo Jesus de Nazaré
- Ismênio Bezerra
- 21 de mar. de 2023
- 12 min de leitura
Os cristãos têm a visão de Deus baseada na tradição judaica ou na visão de Deus revelada por Jesus? Você sabe a diferença? Vale a pena conhecer e refletir sobre nossa concepção de Deus e buscar uma compreensão mais profunda.
Convido você a explorar a visão de Deus no curso da história e refletir sobre os padrões religiosos estabelecidos. Isso pode nos levar a uma compreensão mais autêntica e amorosa de Deus segundo Jesus de Nazaré.

O tema da relação entre o Deus do Antigo Testamento e o Deus dos Evangelhos é complexo e controverso. Há quem argumente que esses dois Deuses são o mesmo, enquanto outros afirmam que há uma distinção clara entre eles. Neste artigo, argumentaremos que Jesus apresentou uma distinção acentuada entre o Deus do Antigo Testamento e o Deus dos Evangelhos.
A Bíblia é composta por dois testamentos: o Antigo Testamento, que é a base da fé judaica, e o Novo Testamento, que é a base da fé cristã. Ratifico: embora ambos os testamentos falem do mesmo Deus, é possível notar diferenças na forma como Ele é apresentado. A Bíblia é uma obra complexa e multifacetada que contém diferentes histórias, narrativas e visões de mundo que se entrelaçam ao longo dos seus livros. A compreensão de Deus é um tema central em toda a Bíblia e, embora haja uma continuidade na imagem de Deus, há também diferenças significativas na sua representação ao longo dos livros que compõem a Bíblia.
Essa diferença de visão pode ser explicada por vários fatores. Um deles é o contexto histórico em que os dois testamentos foram escritos. O Antigo Testamento foi escrito em um período em que os judeus viviam em constante guerra com seus vizinhos e enfrentavam ameaças constantes de invasão e destruição. Nesse contexto, a figura de Deus precisava ser apresentada como um ser poderoso e vingativo, capaz de proteger seu povo e punir seus inimigos.
Já o Novo Testamento foi escrito em um período em que a situação política era mais estável, e as pessoas buscavam uma mensagem de esperança e de paz. Jesus Cristo veio para trazer essa mensagem, ensinando que o amor e a compaixão são mais importantes do que a ira e a vingança.
A primeira parte que é o Antigo Testamento, também conhecida como a Bíblia Hebraica, é composta pelos livros sagrados dos judeus, enquanto a segunda parte, o Novo Testamento, é composta pelos livros sagrados dos cristãos. Embora ambas as partes descrevam o mesmo Deus, existem diferenças significativas na forma como Deus é apresentado no Antigo Testamento em comparação com o Novo Testamento.
No Antigo Testamento, Deus é apresentado como um ser poderoso e temido, que castiga aqueles que desobedecem a suas leis. Ele é descrito como um Deus ciumento, que exige exclusividade em relação ao seu povo e que não hesita em punir os que o desafiam. Os relatos de Deus no Antigo Testamento frequentemente envolvem guerras, destruição e julgamento. O Deus do Antigo Testamento, ou o Deus dos Judeus, é retratado como um Deus justo e poderoso, que tem o poder de criar e destruir, de salvar e condenar. Ele é apresentado como um Deus que se preocupa com a obediência de seu povo e que, por isso, lhes dá leis e mandamentos a seguir. O Deus do Antigo Testamento é um Deus que exige sacrifícios, que se manifesta em terremotos e tempestades, e que pode punir aqueles que não seguem suas ordens. No entanto, apesar de sua força e poder, o Deus do Antigo Testamento também é apresentado como um Deus misericordioso, que se preocupa com seu povo e que está sempre disposto a perdoá-los.
Uma das principais razões pelas quais a imagem de Deus muda tão drasticamente entre o Antigo e o Novo Testamento é a vinda de Jesus Cristo. Jesus é descrito como a encarnação de Deus e é retratado como um Deus de amor e compaixão. Por exemplo, em João 10:30, ele diz: "Eu e o Pai somos um". Essa afirmação indica que Jesus e Deus são inseparáveis e têm a mesma natureza divina. Em João 14:9, Jesus diz: "Quem me vê, vê o Pai". Isso sugere que a imagem de Deus apresentada por Jesus é a imagem mais precisa de quem Deus é. Jesus é descrito como tendo sido enviado à terra para revelar o caráter e a vontade de Deus aos seres humanos. Em João 1:14, está escrito: "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade". Esse versículo indica que Jesus é a encarnação da Palavra de Deus, que se tornou um ser humano e viveu entre as pessoas.
Com a chegada de Jesus Cristo, a visão de Deus apresentada no Novo Testamento se diferencia significativamente daquela do Antigo Testamento. Jesus apresenta Deus como um Pai amoroso e compassivo que se preocupa com a humanidade e deseja estabelecer um relacionamento pessoal com cada indivíduo. Jesus ensinou que Deus não é uma figura distante, ufanista, carente, ciumento e movido pela raiva, mas sim alguém que deseja estar presente em nossas vidas diárias. Ele ensinou que a salvação e a vida eterna não são alcançadas por meio da obediência à lei, mas sim pela fé em Jesus Cristo. Ele ensinou que Deus está sempre pronto a perdoar e acolher aqueles que se arrependem, por isso a mensagem do amor, do perdão e da compaixão incomodam tanto até hoje, pois revela que somos livres em Jesus.

Isso representa uma mudança significativa em relação à mensagem do Antigo Testamento, que é o centro da fé judaica. O centro da fé judaica é a crença em um Deus único e na observância dos mandamentos contidos na Torá. A Torá é o livro sagrado do judaísmo, que contém os cinco primeiros livros da Bíblia hebraica: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Ela é considerada a base da religião judaica e contém os mandamentos e a história do povo de Israel desde a criação até a morte de Moisés.
Os judeus não acreditam em Jesus como o Messias prometido porque a sua concepção de Messias difere da concepção cristã. De acordo com o judaísmo, o Messias será um líder humano escolhido por Deus para conduzir o povo judeu à salvação e à redenção, sem ter uma natureza divina. Além disso, a maioria dos judeus não acredita que Jesus cumpriu as profecias messiânicas da Torá e não reconhece a sua ressurreição como um sinal divino. Por essas razões, os judeus não aceitam Jesus como o Messias. Não é errado dizer que os judeus vivem no tempo da lei.
A ressurreição de Jesus é considerada o centro da fé cristã porque é o momento em que ele vence a morte e prova a sua divindade. Para os cristãos, a ressurreição é a prova da existência de Deus e do poder de Deus sobre a vida e a morte, tornando possível a reconciliação entre Deus e o homem. Além disso, a ressurreição é vista como a confirmação da missão de Jesus e do seu papel como Messias e Salvador.
Através da ressurreição, os cristãos acreditam que Jesus pagou o preço dos pecados da humanidade e abriu o caminho para a salvação eterna. A sua morte na cruz foi um sacrifício pelos pecados da humanidade, e a ressurreição mostra que a sua morte foi efetiva na redenção da humanidade. Mateus 16:21 descreve bem isso: "A partir daquele momento, Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que ele deveria ir a Jerusalém e sofrer muitas coisas nas mãos dos líderes religiosos, ser morto e no terceiro dia ressuscitar".
A ressurreição também cumpre a promessa de Deus de que a morte não seria o fim e que haveria vida após a morte. Ela é vista como uma promessa de vida eterna e de esperança para todos os cristãos.
Em contraponto à tradição judaica que ainda hoje são reproduzidas pelas igrejas cristãs, a Bíblia é clara ao mostrar que Deus não se alegra com o sofrimento humano nem com a autoflagelação. Em Isaías 58:5-6, por exemplo, Deus diz: "Seria esse o jejum que eu escolhi, que o homem se afligisse a si mesmo? (...) O jejum que escolhi não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo?"
Jesus também deixou claro que Deus não é sádico nem deseja nosso sangue em sua honra. Na verdade, Ele veio ao mundo para libertar os oprimidos e trazer vida em abundância (João 10:10). Jesus se sacrificou na cruz para nos redimir do pecado e nos reconciliar com Deus, mas isso não significa que Deus exige que pratiquemos autoflagelação ou qualquer outra forma de autopunição.
Jesus é o "Cordeiro de Deus", que foi imolado como um sacrifício pelos pecados da humanidade. Essa ideia é mencionada em várias passagens da Bíblia, incluindo em João 1:29, onde João Batista vê Jesus e exclama: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!". Além disso, em 1 Coríntios 5:7, Paulo escreve: "Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós". Nesse trecho, Paulo compara Jesus à Páscoa judaica, que era celebrada com o sacrifício de um cordeiro. Assim como o cordeiro era sacrificado para a redenção dos judeus, Jesus é sacrificado para a redenção de toda a humanidade. Em Hebreus 10:12, o autor também escreve: "Mas este homem, depois de oferecer um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à direita de Deus". Nesse trecho, o autor de Hebreus está enfatizando que o sacrifício de Jesus é suficiente para perdoar todos os pecados e, portanto, não há mais necessidade de outros sacrifícios.
Essas passagens e outras na Bíblia mostram que Jesus é identificado como o "Cordeiro de Deus" que foi imolado como um sacrifício pelos pecados da humanidade, e que seu sacrifício é suficiente para redimir toda a humanidade e pôr fim a outros sacrifícios.
Além disso, Deus não valoriza orações vazias como as dos fariseus, que são comuns em nosso tempo. Em Mateus 6:5-7, Jesus disse: "E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. (...) Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará."
Existem muitos fundamentos bíblicos que apresentam Deus Cristão como o Deus do amor, perdão e reconciliação. Aqui estão alguns exemplos:
João 3:16 - "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." Esta é uma das passagens mais conhecidas da Bíblia que enfatiza o amor de Deus pela humanidade e seu desejo de reconciliar as pessoas com Ele.
Efésios 2:4-5 - "Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo - pela graça sois salvos." Este versículo destaca o amor e a misericórdia de Deus como a razão pela qual Ele nos oferece a salvação.
1 João 1:9 - "Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça." Este versículo destaca o perdão de Deus como uma parte essencial de seu caráter amoroso e misericordioso.
Romanos 5:8 - "Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores." Este versículo enfatiza que o amor de Deus não é condicional e que Ele nos ama mesmo quando somos pecadores.
Colossenses 1:20 - "E, por meio dele, reconciliar consigo todas as coisas, tanto as que estão na terra quanto as que estão nos céus, estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz." Este versículo destaca que Deus está empenhado em reconciliar todas as coisas com Ele mesmo, incluindo a humanidade, por meio de Jesus Cristo.

Olhando de fora
Mahatma Gandhi, o líder espiritual e político indiano, é reconhecido em todo o mundo por sua luta pacífica pela independência da Índia e pelos direitos dos pobres e marginalizados. Ele também foi um estudioso das religiões e teve uma grande admiração por Jesus Cristo, embora não fosse cristão. Em uma ocasião, ele afirmou: "Não conheço ninguém que tenha feito mais para a humanidade do que Jesus. De fato, não há nada de errado no cristianismo. O problema são vocês, cristãos. Vocês nem começaram a viver segundo os seus próprios ensinamentos".
Essa declaração é um desafio para os cristãos, tanto na sua fé quanto na sua vida cotidiana. É fácil professar a fé cristã, mas é muito mais difícil viver de acordo com os ensinamentos de Jesus. Jesus pregou o amor ao próximo, o perdão, a humildade, a generosidade, a compaixão e a justiça. Ele curou os doentes, alimentou os famintos, consolou os aflitos e ensinou a verdade. Ele mostrou uma vida de serviço e amor, sem distinção de raça, cor ou religião.
No entanto, muitos cristãos têm falhado em viver de acordo com esses ensinamentos. Eles têm sido hipócritas, julgando e condenando os outros, em vez de amá-los e ajudá-los. Eles têm sido egoístas, buscando seus próprios interesses em vez de servir aos outros. Eles têm sido intolerantes, rejeitando aqueles que são diferentes, em vez de acolhê-los e aprender com eles.
Os cristãos precisam se lembrar de que Jesus não veio apenas para salvar as almas, mas para transformar a vida das pessoas. Eles precisam viver de acordo com os ensinamentos de Jesus, não apenas na igreja, mas em todas as áreas da vida. Eles precisam amar os outros como a si mesmos, perdoar os outros como foram perdoados, e buscar a justiça e a paz em todas as situações.
Em última análise, a afirmação de Gandhi é um chamado à ação para os cristãos. É um apelo para que eles sejam mais do que apenas seguidores de uma religião, mas sejam verdadeiros discípulos de Jesus, vivendo de acordo com seus ensinamentos e transformando o mundo em um lugar melhor. É um convite para viver com amor, humildade e generosidade, em vez de julgamento, arrogância e egoísmo.

"E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". João 8:32
Ler a Bíblia é essencial para a formação da fé cristã, pois é através dela que conhecemos a história do povo de Deus, o plano de salvação e os ensinamentos de Jesus Cristo. No entanto, é importante que o cristão compreenda que o cristianismo é uma religião distinta do judaísmo, embora tenha suas raízes na tradição judaica. É importante destacar que o cristianismo não deve reproduzir discursos e práticas do judaísmo, pois o judaísmo não reconhece Jesus de Nazaré como o Filho de Deus e Salvador da humanidade. Embora a tradição judaica seja uma fonte valiosa de conhecimento e espiritualidade, o cristianismo tem sua própria identidade e deve ser respeitado como tal.
Um cristão que lê a Bíblia deve ter em mente que o cristianismo é uma religião distinta, com suas próprias crenças e práticas. É importante entender os ensinamentos de Jesus Cristo e viver de acordo com eles, sem confundir o cristianismo com outras religiões ou tradições espirituais. Somente assim o cristão poderá seguir o caminho da salvação e ser um verdadeiro discípulo de Cristo.
Um cristão verdadeiro, na minha humilde opinião e do lugar de onde vejo o mundo, deve ser reconhecido não apenas pela sua profissão de fé, mas também pela sua conduta de vida. Embora seja importante conhecer as Escrituras e o Evangelho, a verdadeira fé se manifesta em ações concretas, não apenas em palavras. Um cristão de verdade busca viver de forma coerente e justa, seguindo o exemplo de Jesus Cristo, que foi um modelo de amor, compaixão, humildade e justiça. Ele não apenas pregou esses valores, mas os viveu de forma exemplar, dando a sua vida pelos outros.
Embora o conhecimento das Escrituras seja importante para a formação da fé cristã, não é suficiente em si mesmo. O verdadeiro conhecimento da Bíblia deve se traduzir em uma vida coerente e justa, que reflita os valores do Reino de Deus. Os valores do Reino de Deus, são contrários aos valores egoístas e individualistas do mundo. Isso significa amar o próximo como a si mesmo, perdoar aqueles que nos ofendem, ajudar os necessitados, lutar contra a injustiça e a opressão, e promover a paz e a reconciliação. É através da prática desses valores que um cristão de verdade pode ser um testemunho vivo do amor e da graça de Deus para o mundo.
Deus nos criou como seres humanos com uma capacidade inata de pensar, raciocinar e discernir entre o certo e o errado. Ele nos deu a liberdade de escolher e tomar decisões em nossas vidas, incluindo na área religiosa. Deus não deseja que sejamos alienados ou manipulados por líderes religiosos ou por qualquer outra pessoa, pois isso iria contra o seu plano para nós. Por isso é um importante termos um senso crítico que nos permita avaliar as informações que recebemos e discernir a verdade.
A alienação ou o maniqueísmo, que é a crença em uma divisão rígida entre o bem e o mal, são formas extremas de pensamento que podem levar à intolerância, ao fanatismo e à manipulação por líderes religiosos ou outros indivíduos. Em vez disso, Deus nos chama a um relacionamento pessoal com ele, que inclui o desenvolvimento de nosso conhecimento e discernimento, e nos incentiva a sermos críticos e questionadores, buscando a verdade com humildade e sabedoria.
Deus não quer que sejamos apenas cristãos de fachada, que se limitam a cumprir rituais e tradições sem compreender o significado profundo da mensagem de Jesus Cristo. Ele deseja que sejamos cristãos verdadeiros, que sigam e conheçam a Cristo sem intermediários. Deus quer que sejamos seres humanos inteiros e livres, capazes de pensar por nós mesmos e tomar decisões com sabedoria e discernimento, para que possamos ser os melhores que pudermos ser e contribuir para o bem comum.
Ismênio Bezerra
O cristianismo se fundamenta em quatro Evangelhos, que contam a história da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Esses Evangelhos são uma fonte de ensinamento e inspiração para os cristãos, que buscam seguir os ensinamentos de Jesus e viver de acordo com os valores do Reino de Deus.
Em Mateus 7:15-16, Jesus alerta seus discípulos para "tomar cuidado com os falsos profetas, que vêm até vocês vestidos de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos".
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